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O painel em ação

O painel em ação

Ao que tudo indica (confiram o blog), o painel “A crise da mídia tradicional. Quem vai publicar as notícias que vão alimentar a conversa?” colocou pimenta nos olhos dos participantes e da platéia. Para mim, como mediadora, foi uma ótima oportunidade de reiterar ao vivo e a cores todas as opiniões que venho postando aqui no Intermezzo em tempos recentes: as tradicionais marcas de mídia no Brasil posicionam-se entrincheiradas e resistentes à inovação.

Assistimos a um interessante embate entre egos das personalidades mais conhecidas presentes, até com o surgimento de uma nova denominação para as mídias tradicionais: agora é de bom tom referir-se a elas como “mídias clássicas”. Também assistimos a uma tentativa de desvio temático no painel, onde quase todos os participantes centraram-se no antagonismo novas e velhas mídias.

A proposta de discussão do painel nunca esteve centrada nesse antagonismo. Pelo contrário. O objetivo do painel sempre foi discutir algo mais amplo: a mudança de postura estratégica e cultural de nossas empresas de mídia a partir das tendências globais hoje em curso; o novo patamar de relacionamento com os públicos, integrando a força das redes sociais; e a busca de um novo modelo de negócios dentro do novo contexto. Para contextualizar as discusões, o jornalista Clayton Melo do IDGNow publicou uma excelente entrevista com esta escriba  no blog do evento, e também foi disponibilizada a apresentação que fiz como introdução ao tema.

Embates e egos à parte, o painel resultou numa demonstração de que seus temas principais não eram o foco de atenção de nossos publishers. Ficamos sem saber as respectivas opiniões sobre o que interessa: o mundo da informação digital está mais uma vez em transição e qual seria o posicionamento do Estadão, da Época, da CBN e de um especialista sobre o que vem pela frente?

Durante minha introdução ao tema do painel nossos colegas foram instigados com interessantes vertentes da discussão: a síndrome da periodicidade versus fluxo informativo contínuo; o uso desconfigurado do blog como coluna de opinião e do twitter como substituto de feeds RSS; a integração da voz e opinião dos usuários; e as diferentes formas de geração de receitas. Nada disso pareceu perturbar nossos tótens jornalisticos ali fincados.

Para o Digital Age 2010 proponho colocar pimenta malagueta da boa na mesa: que tal o debate com que já vivencia transição e mudança mundo afora?

(Beth Saad)

Desde o dia 2/06/2009 estamos acompanhando o impacto do lançamento e as repercussões do blog Fatos e Dados da Petrobrás. Um embate de gente grande, de um lado o poder da maior empresa brasileira que, além de tudo, é estatal; e de outro os grandes jornais do país, representando o poder da informação. No meio disso tudo a questão forte: uma efetiva e perigosa quebra da relação fonte-veículo de informação. A Petrobrás, ao publicar no blog perguntas e respostas a ela enderaçadas pelos jornais O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo e O Globo (um material tipicamente de apuração) coloca em questão a atividade mais básica do jornalismo que é a edição. Isso sem falar que tal atitude também põe no mesmo pacote o papel de mediação, a credibilidade, a ética, entre outros pontos fundantes.

Na origem, o blog foi criado, segundo texto da própria empresa para apresentar “fatos e dados recentes da Petrobras e o posicionamento da empresa sobre as questões relativas à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI)“. Tudo certo, em princípio, pois, num momento de dinamismo comunicacional a Petrobrás optou pelo formato blog, bastante adequado à situação. Esse Intermezzo não vai detalhar ainda mais o tema sob o ponto de vista dos preceitos jornalísticos. Muitas foram as avaliações e destacamos os posts dos professores Rogério Christofoletti e Wilson Bueno, e do blog Dicas de um Fuçador. Sem contar, claro, com a enormidade de posts que surgem no Twitter. Em resumo, a Petrobrás apenas faz uso daquilo que está disponível gratuitamente da web para posicionar-se. Se ela usa adequadamente ou não é tema para outro post.

Gostaria de comentar, um pouco mais, sobre o fato de que, uma grande empresa estatal, ao entrar no mundo da web 2.0, se constituindo como um novo pólo de emissão na rede, ameaça os tradicionais emissores de nossa sociedade em seu papel constituído do Quarto Poder. O fato, em seu todo, inaugura uma nova etapa de reconstituição de forças do poder da informação, só possível nos ambientes de mídias sociais. A gritaria geral da imprensa tradicional (hiper justificável pela questão jornalística) também se dá pela incapacidade de nossos veículos se defrontarem com a prática da web 2.0 e sua multiplicidade de vozes.

Para essa discussão remeto ao texto do professor Jeff Jarvis que analisa a convivência entre jornalismo e blogs em recente ação do The New York Times. Sua frase: “...here we see a clash over journalistic culture and methods – product journalism v. process journalism” deixa claro que a questão é cultural e essencialmente de método.  Penso ir mais adiante vinculando cultura e métodos ao ambiente de mídias sociais em redes digitais.

O primeiro ponto é saber se as empresas informativas sabem como agir em rede. Se sabem o que significa para sua marca, imagem e credibilidade informativa estar em paridade com múltiplos emissores, jornalísticos ou não, e especialmente dialogar com os elos fortes e fracos de múltiplas redes. A novidade para os grandes nomes da mídia tradicional, ao que parece, é buscar um novo papel para si nesse cenário: ser o influenciador favorito para os usuários/leitores. Como se destacar em intensidade, importância e referência, diante de um conjunto diversificado que compõe as redes sociais na web.

No caso específico do blog da Petrobrás como, apesar da força informativa que a empresa pretende impor, tornar-se o provedor de informação favorito para os interessados no tema. É possível?

O segundo ponto, bem mais sensível, é a mudança cultural e formativa do profissional. Aqui a palavra-chave é mudança. Irreversível. O que assistimos, hoje, no ambiente brasileiro é um descompasso no ritmo dessas mudanças. No presente momento vemos a academia, Ministério da Educação e as entidades representativas da indústria em discussão “lenta e gradual” das novas diretrizes curriculares para os cursos de jornalismo e da obrigatoriedade do diploma, pautados pelos preceitos da preservação da espécie; e de outro lado temos o ambiente em ebulição, que faz suas mudanças a toque de caixa, que exige posturas de ação-reação típicas do meio digital e que deixa prá trás quem está fora de compasso.

Nesse contexto, estariam os nossos profissionais preparados para a dinâmica contemporânea? Profissionais, empresas informativas e escolas querem efetivamente promover mudanças? Rápidas?

Por fim, enquanto as empresas informativas buscam entender o que é estratégia de diferenciação no mundo 2.0, e  a academia e as instituições hesitam em absorver uma nova cultura, corre em paralelo o embate entre o padrão de produção e consumo da informação no impresso e no online. Na era da informação 2.0, para Jeff Jarvis, o “mito da perfeição”  de processo jornalístico que todo profissional almeja entra em crise quando confrontado ao novo patamar de relacionamento e diálogo exigido por um ambiente de multiplicidade de vozes.

Na verdade, o blog da Petrobrás apenas desencadeou uma discussão que estava abrigada no nível subliminar de nosso Jornalismo. A ponta de um enorme iceberg de rota desconhecida.

(Beth Saad)

Você já se fez essa pergunta? Os blogs teriam chegado a um patamar de qualidade de conteúdo maior do que o da grande imprensa? Seria a mudança geracional dos leitores? A tal web 2.0?

Talvez. Mas um dos possíveis motivos para a queda de leitura da grande imprensa online atende pelo sigla SEO. Não se preocupe, não irei discorrer sobre monetização e sim como os sites noticiosos da grande imprensa não se adaptaram a mudança de comportamento que todos já estão carecas de saber: as pessoas não acessam mais; elas buscam.

Os trabalhos de BATTELLE, TAPSCOTT, MEYER, e SANT’ANNA falam amplamente das características do leitor digital. Contudo, basta conversar com qualquer editor de redação on-line para ele atestar o fato de que a maior parte do tráfego do site advém do Google. Esse fenômeno é observável em qualquer local público de acesso à internet. As pessoas trocaram os favoritos e a digitação manual pelo conforto e a praticidade de uma busca eficiente.

Diante essa realidade, pergunto: ao realizar suas buscas, quantas vezes um site de jornal ou revista de grande circulação apareceu na primeira página de resultados? Faça o teste. Você verá que raramente eles aparecem. As primeiras páginas do Google são praticamente domínio de blogs e de wikis. Mérito deles? Em alguns casos sim, mas mérito maior das plataformas de conteúdo:

  • A maioria das empresas renega plataformas livres de publicação de conteúdo, pois temem a falta de suporte. O resultado é a aquisição de CMSs fechados ou o desenvolvimento de soluções in house que, sem as devidas personalizações, não são semanticamente corretas. Por outro lado, praticamente todos os blogs são construídos em cima das plataformas WordPress e Blogger. Ao contrário dos pacotes fechados, os desenvolvedores e as centenas de voluntários em torno desses dois projetos trabalham versão a versão para deixá-los cada vez mais corretos e adequados ao W3C e aos principais padrões web.
  • As URIs das notícias dos sites da grande imprensa geralmente são compostas de códigos gerados aleatoriamente pelos CMSs ao invés de trazerem o conteúdo da manchete. Estruturas de endereços não amigáveis fazem com que as páginas percam relevância para o Google.
  • Alguns dos sites de jornais e revista que testei desconhecem o que é SiteMap e Robots.txt. A ausência desses dois mecanismos também faz qualquer página perder muitos pontos nos resultados orgânicos dos mecanismos de busca.

A junção da tecnologia dos blogs, a ausência de tecnologia dos sites da grande imprensa e o novo comportamento dos leitores acaba retroalimentando o sistema. O novo usuário busca o conteúdo que aparece na primeira página dos sites de busca – independentemente de grandes critérios qualitativos ou de reputação, basta que o conteúdo responda a pergunta da busca e a minha experiência como professor universitário, infelizmente, comprova isso -, com plataformas mais otimizadas, blogs e páginas wiki sempre aparecem nas primeiras páginas e, logo, são mais clicadas e referenciadas. Desta forma, o algoritmo do Google entende que esse tipo de conteúdo é mais relevante do que os conteúdos dos sites de imprensa. Com a repetição desse ciclo, os sites jornalísticos – a despeito da crise do setor – são, cada vez mais, relegados às últimas páginas dos resultados de busca.

Por isso, além do investimento em conteúdo de qualidade, relevante e exclusivo, é preciso também melhorar as plataformas de conteúdo e não ter medo do que é gratuito. Um bom ponto de partida para iniciar essa mudança é a leitura do Google’s Search Engine Optimization Starter Guide (PDF).

(Andre de Abreu)

O marxismo ainda hoje é considerado algo subversivo. Papo de comunista ou de universitário esquerdóide. Entretanto, uma leitura atenta e livre das paixões partidárias que o estigmatizaram pode trazer explicações sobre muitos movimentos recentes do mundo capitalista, incluindo algumas ligadas à comunicação digital.

Uma releitura da obra de Marx é o que faz a New Left há quase 50 anos. Para falarmos de comunicação digital eu destaco dois de seus representantes: Raymond Williams e Stuart Hall.

O fim dos blogs

Capa da edição brasileira do livro Palavras-Chave, de Raymond Williams

Capa da edição brasileira do livro "Palavras-Chave", de Raymond Williams

Em outubro, o artigo de Paul Boutin na revista Wired deu início a uma série de questionamentos sobre a continuidade dos blogs as we know it. Um de seus argumentos para isso é o fato dos blogs terem sido apropriados por profissionais e empresas que buscam, de alguma forma, monetizar o meio. Desta forma, perde-se a essência de blogs como um canal de comunicação livre e desprendido de qualquer interesse maior. Os espaços públicos atuais para esse tipo de manifestação seriam os serviços de microblogging e comunidades de relacionamento como Twitter e Facebook, respectivamente.

Raymond Williams, em seu “Palavras-Chave”, já previa esse fenômeno. Na obra, ele constata que algumas palavras que definem a nossa sociedade vão mudando de conceito e sentido com o passar dos anos para atender o interesse dominante da ocasião.

Os blogs nasceram como instrumentos de livre expressão e criatividade. Hoje, convivemos com uma massa blogueira que, se não é assalariada para cumprir sua função, persegue de forma insaciável – e, muitas vezes, pouco ética – os invejáveis dólares dos links patrocinados. Palavras são modificadas e discursos são medidos a base de Google Trends em busca de mais page rank. É a versão digital da tão criticada atitude dos programas de televisão que moldam seus conteúdos com base no monitor em tempo real do Ibope.

Comunicação colaborativa

Capa da edição brasileira de Da Diáspora, de Stuart Hall

Capa da edição brasileira de "Da Diáspora", de Stuart Hall

Contemporâneo de Williams, Stuart Hall foi o primeiro editor da New Left Review, que existe até hoje, e um dos principais representantes da Escola de Estudos Culturais de Birmingham, fechada abruptamente em 2002.

Uma das características da sua obra é justamente a crítica ao modelo comunicacional da Escola de Frankfurt, que enxerga o leitor estritamente como receptor, impossibilitado de produção em relação aos meios culturais.

Entretanto, Hall analisa em “Da Diáspora” que a massa não é um receptor passivo, e sim um ativo produtor de cultura. Apesar de o autor tecer seu discurso em uma época em que a internet praticamente não existia, é possível fazer muitas correlações entre o seu pensamento e os acontecimentos presentes.

Por estarmos em um mundo tão mutante e complexo, é fundamental para o comunicador conhecer e revistar a obra desses pensadores que levaram praticamente toda a vida refletindo sobre os fenômenos culturais e comunicacionais da sociedade.

A partir de um repertório sólido, o comunicador poderá compreender de forma mais ampla as relações e conseguirá elaborar estratégias comunicacionais sólidas e duradouras ao invés das famosas “estratégias-estopim”, que fazem muito barulho mas agregam pouco ao relacionamento de longo prazo entre empresa/veículo-consumidor/leitor.

(Andre de Abreu)

Abaixo, reproduzo um texto da jornalista Melinda McAdams. O texto é grande, peço desculpas. Contudo, é tão interessante e necessário que acho que vale a pena reproduzir. Sobretudo porque foi-me enviado, vejam só, por um aluno de Jornalismo.

Journalism educators debate about what students need to know today. I have some ideas about that.

We insist, of course, on reporting fundamentals — news judgment, interviewing skills, fact checking, ethics, law. The need to master these remains strong.

All students should have basic familiarity with (basic) XHTML and CSS. That’s about 10 tags in XHTML. For CSS, that’s fonts, color, and divs. They may not need this every day on the job, but these are the foundation bricks of everything they will ever do — because everything they will do is going to be online.

Every reporter should know how to gather AND edit audio. It’s so close to the normal job of every print reporter, it’s a natural fit. Audio also has a shallow learning curve. Low stress, big returns.

All journalists need to understand the basics of photo composition, photo ethics and simple Photoshop (cropping, resizing, resolution, etc.). I would expect a journalist to have a high-res digital point-and-shoot in her pocket at all times, just in case news happens.

All journalism students should be exposed to Soundslides, because it has become the industry standard. I’d think one required homework assignment using the Soundslides demo version would be enough for many students to get the idea. Anyone who wants to work as a photojournalist should work to become adept.

Video is hard — takes longer to teach than everything else. I hope I’m figuring out how to teach it to print journalism students in less than one semester. I’ll let you know. You may not have cameras and you may not have enough time, but at least you could look at current examples. (And read Colin’s awesome blog.)

Podcasting is not as important as audio interviewing skills and audio editing, but depending on the course, it might make sense to combine the two and produce a weekly podcast — if you can come up with a format.

I recently wrote about why NOT to teach Dreamweaver. Nothing wrong with Dreamweaver — I use it almost daily. But learning it is not the best use of the students’ time. Other stuff is much more important.

Finally, the much neglected matter of storytelling. No matter which vehicle you’re using to carry it, your story is the dealbreaker. No story (or a weak story)? No deal.

Amid all the talk about how to add all this “new” stuff without compromising the “important” stuff (implying that the new skills are not as important as the old ones), most educators never get around to discussing how hard it is to get a really good story out of students. When the subject does come up, there’s universal agreement that the ability to recognize, pursue, and develop a story seems to elude many journalism students.

Don’t forget story. In teaching each of these skills, no matter how technical or tool-based, we have to keep the idea of story prominent and clear.

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