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Iniciarei a minha disciplina de “Web Semântica” na Pós-Graduação da ECA-USP (digicorp) essa semana. Será praticamente impossível — para não dizer uma grande falha — deixar de abordar com os meus alunos a polêmica que se estabeleceu em torno da privacidade dos 500 milhões de usuários presentes no Facebook.

Mas o que a web semântica tem a ver com a privacidade no Facebook? Muito.

O Facebook quer enriquecer a relação entre os dados disponíveis na web. Dados são  pessoas, lugares e objetos. Enriquecer significa dar mais sentido às relações entre pessoas, lugares e objetos, ou seja:

a) aprimorar e explicitar a correlação entre um usuário e seus amigos, colegas de trabalho, parentes etc.;
b) entre o usuário e os lugares que ele gosta de visitar (ou não), ou nas localidades que ele costuma estar/viver/trabalhar;
c) entre o usuário e seus objetos de interesse (as músicas que ouve, os livros que lê, os seriados que assiste etc.).

O Facebook quer fazer tudo isso através do botão “Like” (“Curti” em português), agora disponível em ambientes externos ao Facebook. Assim, a proposta do Facebook é uma proposta semântica: cria laços de significado (sentido) entre pessoas e coisas.

A iniciativa abrange a web inteira. Não fica apenas entre as paredes da rede social. Aliás, o fato dessas relações ficarem relativamente públicas só reforça a aproximação do FB com o grande projeto da web semântica anunciado em 2001 (ser uma web toda aberta e interligada).

O que quero dizer aqui é que não basta abandonar o Facebook. O perigo está exatamente em achar que saindo de uma rede teremos a nossa privacidade preservada. O problema é um pouco mais difícil de resolver: temos que encontrar uma solução para a questão como um todo. Para todas as redes. Para toda a web. Juntos.

(Daniela Bertocchi)

Estava folheando a revista Época Negócios dessa semana quando encontrei um pequeno texto que falava de uma experiência com redes sociais realizada pelo Darpa. Pesquisas desse tipo acontecem aos montes. Mas achei curisamentew interessante o Darpa fazer algo neste sentido.

Para quem não sabe, o Darpa é a agência de pesquisa militar dos EUA. Está ligado ao Pentágono. A sigla significa “Defense Advanced Research Projects Agency” — algo como “Agência de Pesquisas em Projetos Avançados”.

Como bem lembrou André de Abreu nos comments, foi o Darpa que criou em 1969 a ARPANET – primeira rede operacional de computadores à base de comutação de pacotes, ou seja, a precursora da nossa Internet.

Segundo informa a revista, o experimento serviu para o Darpa entender melhor os mecanismos de colaboração online.

A experiência militar com redes sociais foi a seguinte:

-> O pessoal do Darpa instalou 10 balões atmosféricos vermelhos em diferentes cidades dos Estados Unidos.

-> Depois, o órgão divulgou que pagaria 40 mil dólares para a primeira pessoa (ou equipe) que informasse com precisão a latitude e longitude de cada balão.

-> Os interessados em ganhar o prêmio deveriam recorrer ao Twitter, Facebook e afins (também sites e aplicativos diversos) para descobrir o ponto geográfico exato dos objetos.

O que aconteceu?

Bem, entraram na competição uma equipe do MIT, um grupo de cientistas de Harvard e outros 4 mil competidores.

Depois de muita apuração e checagem de informações, a equipe do MIT venceu: em pouco mais de 8 horas conseguiu dizer exatamente onde estavam os dez balões vermelhos.

Havia balões em regiões pouco populosas — como o deserto do Arizona — e outros em cidades mais movimentadas, tipo São Francisco.

Após o concurso, o Darpa falou à imprensa sobre o evento. Isso foi em dezembro do ano passado. Há notícias no NYT, Guardian e CNN….

Compilei as mais interessantes conclusões, vejamos:

  • A colaboração em rede social tende a funcionar melhor em casos pontuais, com custo zero e que conduzam a uma solução verificável. Exemplo? Localizar bombas e evitar ataques terroristas. As redes podem nunca servir para encontrar a cura do câncer, por exemplo. Além disso, têm força em momentos de crise. Ou seja, em situações agudas.
  • A colaboração desinteressada dos usuários é geralmente exceção, não regra. O MIT, por exemplo, se comprometeu a remunerar os colaboradores que fornecessem dados corretos sobre os balões. O grupo usou um esquema de “coleta em pirâmide“: pagamentos diferentes de acordo com a proximidade física da pessoa com o balão. O sujeito que avistasse, com os próprios olhos, um balão vermelho do Darpa e enviasse a localização para o MIT poderia ganhar até 2 mil dólares. O Darpa acredita que eles foram os vencedores por conta deste “estímulo” financeiro.
  • Outro ponto que o Darpa ressaltou é que muitos usuários plantaram informações falsas nas redes sociais com o intuito de atrapalhar os concorrentes. Os competidores mais bem sucedidos foram os que criaram hierarquias para julgá-los. Os mais confiáveis eram os que vinham de fontes conhecidas ou mais próximas.

É claro que o Darpa queria saber a rapidez com que as pessoas podem usar as redes sociais online para resolver um problema de âmbito nacional. Por isso, vale muito a pena ficar de olho em experimentos militares e em suas conclusões. Aliás, o Darpa está no Twitter… @darpa_news

Mas eu pergunto: é possível generalizar tais conclusões?

A pergunta e/ou afirmação do título tem resposta incerta. Depende do leitor, de seu perfil digital e de seu olhar sobre a vida contemporânea. Desde o lançamento do iPad pela Apple na última semana de janeiro/2010 assisitmos a uma verdadeira avalanche de prós e contras apaixonados ou irados de analistas, entendidos, críticos e os sempre alerta palpiteiros paraquedistas.

Não vou ser repetitiva e listar todo o conteúdo de comentários que, certamente, os leitores deste Intermezzo já tiveram acesso. Muito menos vou apontar “os melhores e os piores”. Não cabe aqui. A questão que surge é bem anterior: como se posicionar como profissional e especialmente como ser social diante das ondas de inovação que parecem ter estabelecido um fluxo contínuo em nosso cotidiano?

Como disse, depende de quem está do outro lado da telinha…. (aliás, se você acompanha blogs como o Intermezzo grande chance de ter sido capturado pela digitalização da vida). Compartilho alguns pontos a considerar na hora de decidir se vamos questionar ou se envolver.

Se você é um apple addicted, sem discussão: “I need an iPad now“….

Se você está acomodado na gostosa poltrona da crítica refratária, também sem discussão: sem frases….

Agora, se você (eu incluída) atua em qualquer vertente da comunicação digital, o iPad surge, no mínimo, como um importante elemento de análise e objeto de experimentação para subsidiar a atuação de estrategistas, consultores, pesquisadores e analistas do mundo digital, e até dos burocratas que gravitam nesse ambiente. Não dá prá ignorar, não dá prá se posicionar sem assumir a “metodologia da observação participante” no dizer da academia.

Entendo a chegada do iPad no contexto da concretização do efeito cauda longa para uma inovação de rupturaChris Anderson contribuiu bastante para a popularização de ambos os conceitos. Seguindo um cuidadoso planejamento mercadológico e de desenvolvimento tecnológico da Apple, o iPad vem como o device subsequente na linha transformadora do modo de escutar e adquirir músicas – com o iPod e o iTunes; no modo de transformar o entretenimento musical e audiovisioual como uma experiência de navegação lúdica e compartilhada com o iPodTouch; no modo de fazer tudo isso e ainda falar ao telefone, com o iPhone; e agora trilhando os primeiros metros da evolução dessa transformação ao agregar tudo isso ao modo de leitura, absorção e armazenamento da informação. Um aspecto complexo e concreto tanto para os ditos “apologistas” do capitalismo demoníaco de Steve Jobs, quanto para os ditos “críticos distanciados” de uma cena irreversível.

Para quem acompanha o ambiente da comunicação e mídia digitais o estardalhaço pré, durante e pós lançamento do iPad promovido pela Apple era previsível e parte de seu modus operandi no mercado. Sabemos que ao longo deste 2010 a Apple vai despejar à nossa frente e a conta-gotas melhorias no modelo inicial, inclusão de funcionalidades, ampliação de capacidade, etc. Totalmente previsível.

Dentro da previsibilidade, o que importa para os profissionais do mundo da comunicação digital é analisar, experimentar, acompanhar e evoluir com o que está subjacente – a interação homem-máquina está cada vez mais próxima do funcionamento natural da lógica humana, incluindo suas idissincracias e sua identificação com o lado lúdico da vida. Steve Jobs, me desculpem os críticos mal-humorados, consegue traduzir isso de forma muito evidente e sedutora.

Os produtores de informação e entretenimento poderiam olhar tal processo evolutivo como uma vantagem competitiva que caiu de presente em seus quintais: um device convergente como o iPad agrega um mercado jovem, que considera o modo touch-lúdico como algo natural, com alto potencial de absorção de informações.  Os NYTimes e Estadão da vida deveriam estar dando pulos de alegria….

Retomando, como atuante na profissão e como envolvida por opção, penso que é inerente ter um iPad: “I want an iPad now and ever…”

Como disse logo no início deste post, surfar nessa onda depende muito do modo de olhar o mundo de cada leitor. Convivemos com os olhares dos míopes, que por meio de lentes, protegem suas fragilidades diante do processo de transformação social; com os olhares dos espectadores, que por meio de confortáveis abrigos, assistem à banda passar; com os olhares dos visionários, que por meio de Hubbles pessoais, saltam à frente de seu tempo e são categorizados como anjos ou demônios; e com os olhares dos atentos, que ao escolher o ponto de exclamação para fechar o título do post, buscam seus papéis sociais  nesse enlouquecido cotidiano digital.

Por ora, quero mais é ser feliz com um iPad. Daqui a pouco, vou estar um tanto enfurecida com a obsolescência do dito, e mais adiante, provavelmente vou ficar novamente feliz por ter conseguido trocá-lo por um iPad 4G….

(Beth Saad)

O painel em ação

O painel em ação

Ao que tudo indica (confiram o blog), o painel “A crise da mídia tradicional. Quem vai publicar as notícias que vão alimentar a conversa?” colocou pimenta nos olhos dos participantes e da platéia. Para mim, como mediadora, foi uma ótima oportunidade de reiterar ao vivo e a cores todas as opiniões que venho postando aqui no Intermezzo em tempos recentes: as tradicionais marcas de mídia no Brasil posicionam-se entrincheiradas e resistentes à inovação.

Assistimos a um interessante embate entre egos das personalidades mais conhecidas presentes, até com o surgimento de uma nova denominação para as mídias tradicionais: agora é de bom tom referir-se a elas como “mídias clássicas”. Também assistimos a uma tentativa de desvio temático no painel, onde quase todos os participantes centraram-se no antagonismo novas e velhas mídias.

A proposta de discussão do painel nunca esteve centrada nesse antagonismo. Pelo contrário. O objetivo do painel sempre foi discutir algo mais amplo: a mudança de postura estratégica e cultural de nossas empresas de mídia a partir das tendências globais hoje em curso; o novo patamar de relacionamento com os públicos, integrando a força das redes sociais; e a busca de um novo modelo de negócios dentro do novo contexto. Para contextualizar as discusões, o jornalista Clayton Melo do IDGNow publicou uma excelente entrevista com esta escriba  no blog do evento, e também foi disponibilizada a apresentação que fiz como introdução ao tema.

Embates e egos à parte, o painel resultou numa demonstração de que seus temas principais não eram o foco de atenção de nossos publishers. Ficamos sem saber as respectivas opiniões sobre o que interessa: o mundo da informação digital está mais uma vez em transição e qual seria o posicionamento do Estadão, da Época, da CBN e de um especialista sobre o que vem pela frente?

Durante minha introdução ao tema do painel nossos colegas foram instigados com interessantes vertentes da discussão: a síndrome da periodicidade versus fluxo informativo contínuo; o uso desconfigurado do blog como coluna de opinião e do twitter como substituto de feeds RSS; a integração da voz e opinião dos usuários; e as diferentes formas de geração de receitas. Nada disso pareceu perturbar nossos tótens jornalisticos ali fincados.

Para o Digital Age 2010 proponho colocar pimenta malagueta da boa na mesa: que tal o debate com que já vivencia transição e mudança mundo afora?

(Beth Saad)

O Estadão de hoje (24/08/09), em seu caderno Link, dedica várias páginas ao tema blogsfera e sua possível “morte”. Destacam-se a matéria sobre o blog do Planalto, a entrevista de Steve Rubel, analista e consultor web norte-americano e autor do blog Micropersuasion;  e a coluna de Pedro Dória. Os dois comentaristas, de uma maneira ou de outra, preconizam não mais escrever em blogs, seja pela falta de tempo, seja pelo esgotamento da ferramenta. E o blog do Planalto aparece como algo um tanto defasado do contexto atual, tema já discutido aqui, à exaustão. (no momento em que escrevo esse post o Link ainda não tinha atualizado todas as matérias da edição de 24/08/09).dmorte_blogsfera

Ao que parece, mais uma vez temos um conteúdo chamativo, midiático, mas com pouca sustentação de base analítica. Mais um buzz pinçado na onda das mídias sociais.

Deixo aqui meu depoimento como blogueira desse Intermezzo, usuária das mídias sociais e analista.

Até um passado recentíssimo – prá não dizer do próprio presente – o foco das discussões sobre mídias sociais era como integrar todas as ferramentas e possibilidades dos diálogos e conversações às propostas do que chamamos “mídias tradicionais” na web. A questão da participação e da expressão do usuário protagoniza as decisões de gestores de portais, editores de marcas jornalísticas, entre outros. Como integrar? Como estar presente no Twitter? Ter uma página do Facebook? São temas cotidianos ainda não solucionados.

Surge agora um novo foco: a integração dentro do próprio âmbito das mídias sociais.

O termo complementariedade é fundamental. Cada uma das ferramentas  – blog, twitter, facebook, por exemplo, possuem características próprias de estilo narrativo e forma de relacionamento com os leitores/usuários/seguidores. O que postamos num blog, bastante opinativo e correlacional, pode ser condensado em 140 caracteres para o twitter, que prima pela objetividade informativa e multiplicação de idéias, e pode ser propagado num facebook por meio de um convite para a rede de amigos à leitura  e comentários do post.

A experiência nesse Intermezzo tem sido nosso campo de provas sobre tal proposição. Percebemos, cada vez mais, que nossa audiência a cada post vem direcionada pelas nossas micro-postagens nas redes sociais; e que em médio e longo prazo a audiência para o blog em geral e seu conteúdo passado vem das ferramentas de busca. Os comentários, quase sempre canalizados nas redes sociais. Nada mais complementar! e, por outro lado, nada mais trabalhoso! Estar na rede, hoje, se confiigura cada vez mais numa ação de envolvimento e engajamento contínuos.

Com isso, não parece adequada a afirmação sobre a morte da blogsfera. O que temos, claramente, é uma reconfiguração de objetivos, aonde o blog se identifica com o website de destino do usuário para aprofundamento da informação e conhecimento mais amplo da opinião autoral; o twitter como a “plataforma de embarque” dos usuários da rede num dado tipo de conteúdo; e o Facebook e similares, como plataforma de diálogo e conversação complementar aos comentários postados no próprio blog – quase uma Ágora contemporânea.

Para quem está nesse mundo conectado por paixão e/ou profissão, só nos resta torcer pelo surgimento de plataformas integradoras (já existem várias) que juntem blog, twitter, redes sociais num mesmo espaço de operação e controle.  Ou seguir a recomendação de Steve Rubel e adentrar ao Lifestreamming. Só vejo muito trabalho pela frente.

(Beth Saad)

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