Em maio de 2004 a ECA-USP fez homenagem póstuma ao Professor Octavio Ianni e eu tive a honra de participar falando de sua fase intelectual vinculada à globalização e ao mundo digital.

Por inspiração do André de Abreu achei oportuno republicar o texto aqui no Intermezzo como forma de “reinaugurar” as publicações de nosso blog. Nem sempre constantes, mas com alguma reflexão.

Vejam o texto na íntegra:

Inicialmente, gostaria de agradecer à comissão organizadora pelo convite para este depoimento. É um privilégio vivenciar esse momento, homenageando o Professor Dr. Octavio Ianni, cuja participação em minha formação intelectual remonta aos tempos de quando cusávamos o clássico ou o científico, quando seus livros, às vezes escondidos entre estantes, eram garimpados na biblioteca e disputados pelos colegas nos anos negros após de 1968. Uma participação subliminar que perdurou até os anos de proximidade e convivência aqui na ECA-USP não só como colegas na docência, mas especialmente, como um referencial de vitalidade, inquietação intelectual e generosidade no compartilhamento de seus conhecimentos com alunos e quaisquer colegas.

Aqui destaco e agradeço, em primeiro lugar, às sutis ou radicais transformações produzidas em orientandos e alunos de pós-graduação da linha de pesquisa Jornalismo, mercado e Tecnologia, que freqüentaram seus cursos, ou tiveram a honra em ter o Professor Ianni em suas bancas de qualificação e defesa. Todas resultaram em ampliação de horizontes e pontos de luzes na formação desses novos pesquisadores. Neles ficaram implantadas as sementes da investigação e da inovação.

Coube-me o honroso papel de discorrer sobre as recentes reflexões do professor nos campos da comunicação e da sociedade digitais e também sobre o papel das novas tecnologias de informação e comunicação, segundo suas próprias palavras, “em revelar o seu empenho para explicar o que vai pelo mundo globalizado”.

Apesar da comunicação e mídias digitais serem meu foco como pesquisadora já há mais de dez anos, pesam-me a responsabilidade e a ousadia ao propor esta breve revisão do pensamento do Professor Octavio Ianni.

O texto “O Príncipe Eletrônico”, publicado no ano 2000, como parte do livro Enigmas da Modernidade – Mundo tem sido adequadamente utilizado como a principal referência no conjunto de reflexões críticas, mas também realistas, da relação quase incestuosa que se estabeleceu entre o processo de globalização político-econômica e sociocultural e o desenvolvimento e utilização das tecnologias de informação e comunicação, de base eletrônica e digital como instrumento desse processo tão multifacetado.

Retomando pontual e rapidamente os conceitos descritos pelo professor acerca do Príncipe eletrônico, vemos que em diferentes momentos históricos de ruptura sempre houve uma presença principesca catalisadora com capacidade de transformação dos paradigmas social, político e econômicos vigentes.

Assim foi com o príncipe de Maquiavel, representado por uma pessoa real, um líder capaz de conciliar sua virtú (liderança), com a fortuna (as condições sócio-políticas). Maquiavel, consiglere de uma sucessão de lideranças da família Médici, em Florença sustentou política e ideologicamente as presenças principescas que marcaram a emergência do renascimento na história do Ocidente.

Também assim foi com o Moderno Príncipe de Gramsci, onde a representação principesca concentra-se no partido político como a entidade social (abre aspas) “empenhada em expressar as inquietações dos seus seguidores, mas simultaneamente capaz de interpretar as inquietações e reivindicações dos outros setores da sociedade”. O moderno príncipe traz a ruptura da luta de classes pela soberania e pelo poder; traz a ruptura do socialismo e, consequentemente, a ruptura da radicalização das elites.

Cabe, portanto, uma pergunta: seria o Príncipe eletrônico a representação de uma vigente ruptura histórico-social que ultrapassa os limites da política e instala-se nos âmbitos do indivíduo e também da identidade coletiva?

Antes de uma resposta definitiva, que nem mesmo o próprio Professor Octavio Ianni apresentou sem as devidas ponderações, gostaria de recuperar alguns pontos de seu pensamento, refletidos em textos, entrevistas e seminários que – se analisados conjuntamente – demonstram que a ruptura ora vivenciada pela parceria entre globalização e redes digitais de comunicação e informação é paradigmática e fundamentalmente transformadora.

São estes “insight points” que sustentam o Príncipe Eletrônico, e refletem tipicamente as características de uma nova sociedade, pautada pela totalidade social e pelo intelectual coletivo, segundo suas próprias palavras.

 

Este insights merecem um parêntesis para ressaltar uma das características mais inesquecíveis de Octavio Ianni: sua vitalidade intelectual encontrável apenas em pessoas especiais, possibilitando vivenciar o contemporâneo, refletir e pesquisar sobre ele e produzir idéias e posicionamentos para à frente de seu tempo.

Bem, vamos a estes pensamento-chave:

O primeiro aspecto da mudança de paradigma social que alimenta o príncipe eletrônico é a necessidade de aproximação entre ciências e humanidades. Ianni, inspirado no texto literário de C.P. Snow, “Duas Culturas”, vincula as ciências sociais às revoluções científicas, resultando nas possibilidades de novos estilos de pensamento baseados na linguagem como um meio de conexão e diálogo.

Para Ianni, a transição do século XX para o XXI insere-se na hipótese de que algumas revoluções científicas ocorrem no âmbito de revoluções culturais mais abrangentes e, nesse contexto, estaríamos vivenciando uma ruptura histórica acompanhada de uma ruptura epistemológica a revelarem-se mais abertamente nas décadas futuras.

Caberá, segundo Ianni, às ciências sociais, à filosofia e às artes o papel de descobrir ou inventar novos horizontes, respondendo às inquietações, tensões, vibrações e ilusões que podem estar germinando no espírito da época.

Nesse contexto reside a criatividade e a inventividade do Príncipe Eletrônico.

Surge, então, um segundo aspecto, limitador da criatividade do Príncipe Eletrônico, por conta das características uniformizadoras, totalizantes e desterritorializadas da globalização: a utilização dos meios de comunicação (fruto da produção científica) como uma técnica social cuja linguagem (fruto da produção social) tem o poder da ambigüidade entre revelação e manipulação.

O terceiro aspecto levantado por Ianni que irá contribuir para a formação da identidade do príncipe eletrônico, opostamente ao anterior, refere-se à uma espécie de onipresença principesca de pensamento de uma sociedade civil mundial. Uma onipresença representada pela multiplicação dos espaços e aceleração dos tempos em todas as direções, em todas as esferas de atividades e de imaginação que (abre aspas) “graças às tecnologias eletrônicas com as quais se globaliza ainda mais intensa e generalizadamente a globalização”.

Cria-se aqui o locus do príncipe eletrônico: o ciberespaço.

O quarto ponto de pensamento refere-se ao papel da mídia neste locus do príncipe. Em entrevista ao site iColetiva, o Professor Octavio Ianni afirma que (abre aspas) “a mídia hoje não é mais nacional. Se você procurar nos jornais que você lê, se procurar qual agência noticiosa que está informando sobre os acontecimentos, você não encontra. Às vezes, o jornal , com muita parcimônia registra a fonte lá no cantinho de uma página. E eles nunca tornam transparente a forma como eles “cozinham” as matérias na redação. E as matérias, às vezes, vêm totalmente preparadas por agências de alcance mundial. Todo jornal hoje tem um quê de CNN”.

Agrega-se ao Príncipe Eletrônico mais uma característica controversa: a parcialidade de opinião, aquela que promove uma ilusão de pensamento unificado conforme os interesses das instituições, corporações e entidades que movem a engrenagem da aldeia global que, segundo as palavras do professor, (abre aspas) “de tal modo se influenciam contínua e sistematicamente as mentes e os corações de indivíduos e coletividades, povos e nações, em todo o mundo; com o que se criam, reproduzem e multiplicam as multidões solitárias, vagando e flutuando através do novo mapa do mundo, do novo palco da história”.

O quinto e último ponto de reflexão proposto por Ianni refere-se ao contraponto das condições e possibilidades entre linguagem e sociedade. Para ele, palavra, linguagem e narrativa sob todas as suas formas, podem ser ecos de harmonias e cacofonias produzidas no âmbito das formas de sociabilidade e nos jogos das forças sociais. Ao considerarmos o cenário social de transição via globalização, passam a predominar as linguagens eletrônicas, informáticas cibernéticas, virtuais. Para Ianni (abre aspas) “em poucas décadas, todas as formas de literalidade e oralidade, compreendendo a aula, o discurso do poder, a conversação, o entretenimento, a comunicação, a informação a mídia, o livro, a revista, o jornal são desafiados pela imagem, o videoclipe, o hipertexto, o cibertexto, a multimídia. Em pouco tempo, a palavra enquanto signo da modernidade é recoberta pela imagem enquanto signo da pós-modernidade”.

Acredito ser agora, após uma breve revisão dos pensamentos-chave de Octávio Ianni, o momento de buscarmos respostas sobre quem é e a quem representa o Príncipe eletrônico condottieri da sociedade global, arquiteto da agora eletrônica.

Formalmente, o professor define o Príncipe Eletrônico como uma entidade nebulosa e ativa, presente e invisível, predominante e ubíqua, permeando continuamente todos os níveis da sociedade, em âmbito local, nacional, regional e mundial. É o intelectual coletivo e orgânico das estruturas e blocos de poder presentes, predominantes e atuantes em escala nacional, regional e mundial, sempre em conformidade com os diferentes contextos socioculturais e político-econômicos desenhados no novo mapa do mundo.

Ocorre que não podemos deixar de relembrar suas palavras e efetiva ação ao recorrer à viagem, tanto como metáfora quanto como realidade, para explicar que “todo cientista social realiza algum tipo de viagem enquanto estuda, ensina e pesquisa [...] a viagem pode alterar o significado do tempo e do espaço, da história e da memória, do ser e do devir. [...] a rigor, cada viajante abre seu caminho, não só quando desbrava o desconhecido, mas inclusive quando redesenha o conhecido”.

Assim, se levarmos em conta a faceta de viajante do cientista social Octavio Ianni, podemos dizer que sua configuração de Príncipe Eletrônico resulta de uma viagem desbravadora pelos desconhecidos mares das tecnologias digitais de informação e comunicação, registrada numa espécie de diário de bordo. Tal viagem, somada à sua vivência intelectual é que configurou o redesenho da figura principesca que sempre permeou nossa história.

Figura essa agora digitalizada e globalizante.

O Ser, se assim podemos nos referir ao indefinido, resultante é um tanto assustador. Não é apenas a mídia amplificada pelas tecnologias digitais. Também não é apenas a representação invisível de instituições políticas e sociais dominantes, ou agente das corporações transnacionais. O Príncipe Eletrônico é tudo isso e um tanto mais: está a serviço de um mundo sistêmico, globalizante e, portanto, excludente; é dissimulado e permeável porque simultaneamente se põe a serviço da pluralidade e da democratização da informação; é especialista na criação de simulacros de realidades – mitos fluidos, líderes momentâneos, espetacularização da política e de políticos; é articulador de uma vasta e complexa rede de mercados, idéias e mercadorias; é manipulador e controlador das massas provocando a impressão de que tudo navega no presente presentificado, petrificado.

Além de tudo isso, o Príncipe Eletrônico possui um atributo que deixa virtú, fortuna e o partido político em segundo plano – ele beneficia-se amplamente dos recursos tecnológicos digitais, colocando sob o seu controle os recursos narrativos que permitem tanto registrar e divulgar como enfatizar e esquecer, ou relembrar e enervar. Tal contexto faz com que as possibilidades de consciência se descolem contínua e reiteradamente da realidade, da experiência ou da existência.

Mas, não podemos esquecer que tais atributos são relativos à máquina, ao sistema eletrônico. E máquinas, no dizer do professor Ianni, não possuem mentes.

Finalizando, acredito que o Professor Octavio Ianni deixa para todos nós, docentes, pesquisadores e estudantes alguns desafios. Deixa acesa a permanente chama da viagem, da descoberta, e da perseguição a uma única resposta ainda não obtida: quem é o Príncipe eletrônico?

Coerente à sua trajetória intelectual, acadêmica e política, Octávio Ianni caracteriza o Príncipe Eletrônico, mas não assume uma postura de aceitação, de passividade ou de conformismo com relação ao irreversível predomínio das tecnologias digitais nos meios de comunicação. Pelo contrário. Ele nos deixa com a responsabilidade de continuar a pesquisa e a viajar pelos caminhos e brechas libertárias oferecidas pelo próprio Príncipe.

Incansável, também nos deixa como legado a crença no poder da resistência e da nossa preservação, enquanto comunicadores, das características de atenção e de reação a cada manobra do Príncipe. Sem contestações, o Príncipe também poderá estar a serviço da valorização da cidadania, da formação de uma ampla democracia.

As forças de resistência e mudança estão nas mentes e nos corações e não nas máquinas.

 

Iniciarei a minha disciplina de “Web Semântica” na Pós-Graduação da ECA-USP (digicorp) essa semana. Será praticamente impossível — para não dizer uma grande falha — deixar de abordar com os meus alunos a polêmica que se estabeleceu em torno da privacidade dos 500 milhões de usuários presentes no Facebook.

Mas o que a web semântica tem a ver com a privacidade no Facebook? Muito.

O Facebook quer enriquecer a relação entre os dados disponíveis na web. Dados são  pessoas, lugares e objetos. Enriquecer significa dar mais sentido às relações entre pessoas, lugares e objetos, ou seja:

a) aprimorar e explicitar a correlação entre um usuário e seus amigos, colegas de trabalho, parentes etc.;
b) entre o usuário e os lugares que ele gosta de visitar (ou não), ou nas localidades que ele costuma estar/viver/trabalhar;
c) entre o usuário e seus objetos de interesse (as músicas que ouve, os livros que lê, os seriados que assiste etc.).

O Facebook quer fazer tudo isso através do botão “Like” (“Curti” em português), agora disponível em ambientes externos ao Facebook. Assim, a proposta do Facebook é uma proposta semântica: cria laços de significado (sentido) entre pessoas e coisas.

A iniciativa abrange a web inteira. Não fica apenas entre as paredes da rede social. Aliás, o fato dessas relações ficarem relativamente públicas só reforça a aproximação do FB com o grande projeto da web semântica anunciado em 2001 (ser uma web toda aberta e interligada).

O que quero dizer aqui é que não basta abandonar o Facebook. O perigo está exatamente em achar que saindo de uma rede teremos a nossa privacidade preservada. O problema é um pouco mais difícil de resolver: temos que encontrar uma solução para a questão como um todo. Para todas as redes. Para toda a web. Juntos.

(Daniela Bertocchi)

Descrever tudo o que aconteceu na Conferência Internacional de Redes Sociais, que aconteceu em Curitiba entre os dias 11 e 13 de março, é uma tarefa inglória. Afinal, um encontro que reuniu mais de 3 mil pessoas e 100 palestrantes – entre eles Steven Johnson, Clay Shirky e Pierre Lévy – só pode resultar em um turbilhão de ideias e tendências que busquei resumir nos tópicos a seguir:

Redes sociais e as cidades

Ao contrário do que se previa, a cada ano mais e mais pessoas estão deixando o campo e vivendo nas cidades. Em 2007, 3,3 bilhões de pessoas moravam em grandes centros; em 2050 estima-se que esse número chegue a 6,4 bilhões.

De acordo com Clay Shirky, “quanto maior e mais densa a concentração de pessoas mais precisaremos desenvolver ferramentas de comunicação e informação eficazes para ambientes populosos como as grandes cidades”. O autor do livro Here Comes Everybody relembra o sistema pneumático muito utilizado na comunicação dos primeiros arranha-céus para que as pessoas não precisassem mais subir ou descer dezenas de andares para se comunicarem uma com as outras. As redes sociais e a internet terão papel fundamental em aperfeiçoar a comunicação e potencializar a extração de inteligência das informações geradas pelos habitantes desses centros.

Steven Johnson concorda e complementa: “a internet é essencial principalmente às grandes cidades. Nas pequenas, as pessoas conseguem ter noção de tudo aquilo que ocorre em sua volta, do novo restaurante da rua principal à posse de um novo legislador. Já a proporção que algumas cidades tomaram fez com que seus moradores perdessem essa noção do todo e a internet e seus dados acabaram se tornando fundamentais para o melhor aproveitamento do espaço público.

Rede de coisas

O volume atual de dispositivos conectados à rede é estimado em 1 trilhão, principalmente por conta dos videogames e dos celulares. A recente queda da rede do Playstation 3 fez com que todos enxergassem uma promessa antiga: a internet não é mais formada apenas por computadores e sim por todo tipo de gadget fruto do processo de digitalização iniciado na década de 80.

Isso faz com que possamos estar em contato direto entre o mundo virtual e o mundo real e um dos grandes exemplos dessa integração é o FourSquare. Esse aplicativo para celulares cria uma rede social orgânica, pois novas conexões podem surgir em tempo real baseadas na localização de cada indivíduo.

Integração real x virtual

Casos famosos como a trilogia de vídeos de Dave Caroll contra a United Airlines utilizaram o poder da web para reverberar uma mensagem, porém não para mobilizar pessoas em torno dela. Esse movimento de aversão à companhia aérea acabou surgindo como “efeito colateral” da atitude do cantor, e não de forma planejada.

Entretanto, o fato de as pessoas estarem cada vez mais conectadas faz com que aumentem o número de iniciativas que utilizam as redes sociais virtuais para mobilizar grupos em torno de causas ou em prol de mudanças no mundo real de forma estruturada. Exemplos não faltaram durante os três dias de evento, como o PatientsLikeMe, SeeClickFix, MeetUp e o KickStarter.

Privacidade, excesso de informação e PKM

A presença em todas as redes sociais traz implicações como o excesso de exposição e a perda de privacidade. Porém, Steven Johnson relembra que isso não pode ser usado como argumento para abandoná-las. Pelo contrário, precisamos usufruir tudo isso que é oferecido por elas, mas sabendo preservar nossa intimidade. Steven sugere, inclusive, que isso seja ensinado nas escolas às crianças desde os primeiros anos.

As questões relacionadas ao indivíduo inserido nas redes sociais também foram assunto da fala de Pierre Lévy que abordou a gestão pessoal do conhecimento no último dia da conferência. O filósofo francês acredita que o “problema não está no excesso de informação e sim na ausência de critérios individuais de foco e de escolha de fontes confiáveis a seguir”. Para contornar esse problema, Lévy propõe um método composto de nove etapas, além do uso de processos e ferramentas de PKM (personal knowledge management):

  1. Gestão da atenção
  2. Conexão com fontes valiosas
  3. Agregar/Coletar fluxos de informação
  4. Filtragem
  5. Categorização
  6. Registro para memória de longo prazo
  7. Síntese
  8. Compartilhar/comunicar
  9. Reassess (retrofluxo do processo)

O saldo desta troca intensa de interações mostra que temos ainda um grande campo a ser explorado. A onipresença da tecnologia faz com que ela se entrelace às nossas vidas de uma maneira que praticamente não percebamos mais sua existência. Isso faz com que, finalmente, as atenções se voltem para o ponto de onde jamais deviam ter saído: as pessoas.

(Andre de Abreu)

Estava folheando a revista Época Negócios dessa semana quando encontrei um pequeno texto que falava de uma experiência com redes sociais realizada pelo Darpa. Pesquisas desse tipo acontecem aos montes. Mas achei curisamentew interessante o Darpa fazer algo neste sentido.

Para quem não sabe, o Darpa é a agência de pesquisa militar dos EUA. Está ligado ao Pentágono. A sigla significa “Defense Advanced Research Projects Agency” — algo como “Agência de Pesquisas em Projetos Avançados”.

Como bem lembrou André de Abreu nos comments, foi o Darpa que criou em 1969 a ARPANET – primeira rede operacional de computadores à base de comutação de pacotes, ou seja, a precursora da nossa Internet.

Segundo informa a revista, o experimento serviu para o Darpa entender melhor os mecanismos de colaboração online.

A experiência militar com redes sociais foi a seguinte:

-> O pessoal do Darpa instalou 10 balões atmosféricos vermelhos em diferentes cidades dos Estados Unidos.

-> Depois, o órgão divulgou que pagaria 40 mil dólares para a primeira pessoa (ou equipe) que informasse com precisão a latitude e longitude de cada balão.

-> Os interessados em ganhar o prêmio deveriam recorrer ao Twitter, Facebook e afins (também sites e aplicativos diversos) para descobrir o ponto geográfico exato dos objetos.

O que aconteceu?

Bem, entraram na competição uma equipe do MIT, um grupo de cientistas de Harvard e outros 4 mil competidores.

Depois de muita apuração e checagem de informações, a equipe do MIT venceu: em pouco mais de 8 horas conseguiu dizer exatamente onde estavam os dez balões vermelhos.

Havia balões em regiões pouco populosas — como o deserto do Arizona — e outros em cidades mais movimentadas, tipo São Francisco.

Após o concurso, o Darpa falou à imprensa sobre o evento. Isso foi em dezembro do ano passado. Há notícias no NYT, Guardian e CNN….

Compilei as mais interessantes conclusões, vejamos:

  • A colaboração em rede social tende a funcionar melhor em casos pontuais, com custo zero e que conduzam a uma solução verificável. Exemplo? Localizar bombas e evitar ataques terroristas. As redes podem nunca servir para encontrar a cura do câncer, por exemplo. Além disso, têm força em momentos de crise. Ou seja, em situações agudas.
  • A colaboração desinteressada dos usuários é geralmente exceção, não regra. O MIT, por exemplo, se comprometeu a remunerar os colaboradores que fornecessem dados corretos sobre os balões. O grupo usou um esquema de “coleta em pirâmide“: pagamentos diferentes de acordo com a proximidade física da pessoa com o balão. O sujeito que avistasse, com os próprios olhos, um balão vermelho do Darpa e enviasse a localização para o MIT poderia ganhar até 2 mil dólares. O Darpa acredita que eles foram os vencedores por conta deste “estímulo” financeiro.
  • Outro ponto que o Darpa ressaltou é que muitos usuários plantaram informações falsas nas redes sociais com o intuito de atrapalhar os concorrentes. Os competidores mais bem sucedidos foram os que criaram hierarquias para julgá-los. Os mais confiáveis eram os que vinham de fontes conhecidas ou mais próximas.

É claro que o Darpa queria saber a rapidez com que as pessoas podem usar as redes sociais online para resolver um problema de âmbito nacional. Por isso, vale muito a pena ficar de olho em experimentos militares e em suas conclusões. Aliás, o Darpa está no Twitter… @darpa_news

Mas eu pergunto: é possível generalizar tais conclusões?

A pergunta e/ou afirmação do título tem resposta incerta. Depende do leitor, de seu perfil digital e de seu olhar sobre a vida contemporânea. Desde o lançamento do iPad pela Apple na última semana de janeiro/2010 assisitmos a uma verdadeira avalanche de prós e contras apaixonados ou irados de analistas, entendidos, críticos e os sempre alerta palpiteiros paraquedistas.

Não vou ser repetitiva e listar todo o conteúdo de comentários que, certamente, os leitores deste Intermezzo já tiveram acesso. Muito menos vou apontar “os melhores e os piores”. Não cabe aqui. A questão que surge é bem anterior: como se posicionar como profissional e especialmente como ser social diante das ondas de inovação que parecem ter estabelecido um fluxo contínuo em nosso cotidiano?

Como disse, depende de quem está do outro lado da telinha…. (aliás, se você acompanha blogs como o Intermezzo grande chance de ter sido capturado pela digitalização da vida). Compartilho alguns pontos a considerar na hora de decidir se vamos questionar ou se envolver.

Se você é um apple addicted, sem discussão: “I need an iPad now“….

Se você está acomodado na gostosa poltrona da crítica refratária, também sem discussão: sem frases….

Agora, se você (eu incluída) atua em qualquer vertente da comunicação digital, o iPad surge, no mínimo, como um importante elemento de análise e objeto de experimentação para subsidiar a atuação de estrategistas, consultores, pesquisadores e analistas do mundo digital, e até dos burocratas que gravitam nesse ambiente. Não dá prá ignorar, não dá prá se posicionar sem assumir a “metodologia da observação participante” no dizer da academia.

Entendo a chegada do iPad no contexto da concretização do efeito cauda longa para uma inovação de rupturaChris Anderson contribuiu bastante para a popularização de ambos os conceitos. Seguindo um cuidadoso planejamento mercadológico e de desenvolvimento tecnológico da Apple, o iPad vem como o device subsequente na linha transformadora do modo de escutar e adquirir músicas – com o iPod e o iTunes; no modo de transformar o entretenimento musical e audiovisioual como uma experiência de navegação lúdica e compartilhada com o iPodTouch; no modo de fazer tudo isso e ainda falar ao telefone, com o iPhone; e agora trilhando os primeiros metros da evolução dessa transformação ao agregar tudo isso ao modo de leitura, absorção e armazenamento da informação. Um aspecto complexo e concreto tanto para os ditos “apologistas” do capitalismo demoníaco de Steve Jobs, quanto para os ditos “críticos distanciados” de uma cena irreversível.

Para quem acompanha o ambiente da comunicação e mídia digitais o estardalhaço pré, durante e pós lançamento do iPad promovido pela Apple era previsível e parte de seu modus operandi no mercado. Sabemos que ao longo deste 2010 a Apple vai despejar à nossa frente e a conta-gotas melhorias no modelo inicial, inclusão de funcionalidades, ampliação de capacidade, etc. Totalmente previsível.

Dentro da previsibilidade, o que importa para os profissionais do mundo da comunicação digital é analisar, experimentar, acompanhar e evoluir com o que está subjacente – a interação homem-máquina está cada vez mais próxima do funcionamento natural da lógica humana, incluindo suas idissincracias e sua identificação com o lado lúdico da vida. Steve Jobs, me desculpem os críticos mal-humorados, consegue traduzir isso de forma muito evidente e sedutora.

Os produtores de informação e entretenimento poderiam olhar tal processo evolutivo como uma vantagem competitiva que caiu de presente em seus quintais: um device convergente como o iPad agrega um mercado jovem, que considera o modo touch-lúdico como algo natural, com alto potencial de absorção de informações.  Os NYTimes e Estadão da vida deveriam estar dando pulos de alegria….

Retomando, como atuante na profissão e como envolvida por opção, penso que é inerente ter um iPad: “I want an iPad now and ever…”

Como disse logo no início deste post, surfar nessa onda depende muito do modo de olhar o mundo de cada leitor. Convivemos com os olhares dos míopes, que por meio de lentes, protegem suas fragilidades diante do processo de transformação social; com os olhares dos espectadores, que por meio de confortáveis abrigos, assistem à banda passar; com os olhares dos visionários, que por meio de Hubbles pessoais, saltam à frente de seu tempo e são categorizados como anjos ou demônios; e com os olhares dos atentos, que ao escolher o ponto de exclamação para fechar o título do post, buscam seus papéis sociais  nesse enlouquecido cotidiano digital.

Por ora, quero mais é ser feliz com um iPad. Daqui a pouco, vou estar um tanto enfurecida com a obsolescência do dito, e mais adiante, provavelmente vou ficar novamente feliz por ter conseguido trocá-lo por um iPad 4G….

(Beth Saad)

Mais uma vez exponho neste Intermezzo a questão sobre o uso descontextualizado de ferramentas digitais de comunicação. É a vez do Twitter. Não tenho qualquer pretensão de criar aqui um discurso “dita regras” ou “ciber-cri-cri”,  já que a compreensão e o uso de uma mídia tem tudo a ver com a forma social na qual se insere. Ou seja: cada um no seu quadrado? Nem tanto…

Seja por obrigação profissional e acadêmica, ou ainda por vocação de nosso blog, cabe criticar, refletir, discutir, dialogar sobre os temas de comunicação digital. Blogs, redes sociais, jornalismo online, carreira são apenas alguns pontos que recentemente pautamos aqui.

A recentíssima migração para o twitter de figuras deste Brasil que podem ser categorizadas (termos cunhados pela própria mídia) como celebridades, gurus, comunicadores influentes, comunicadores emergentes, pioneiros, entre outros, tem chamado a atenção: alardeiam no ciber e no papel números recordes de seguidores, “conversam” com essa massa numérica e distribuem “olás” e “obrigados” rede afora. OK! Novamente cada um no seu quadrado?

Nem tanto, já que esse grupo de tuiteiros neófitos têm em comum, quase sempre, origem ou atuam no mundo da comunicação e, portanto e supostamente, são referência para uma enorme quantidade de pessoas. E, analisando algumas celebrities timelines no twitter, são poucas as que exercem seu papel de influenciador corretamente com relação ao twitter.

Antes de tudo, que tal retormarmos o que é e para que serve o twitter? Falamos de uma ferramenta típica para ambiências digitais em formato de rede social, caracterizada como microblog por incorporar a postagem como forma expressiva, cometários e disseminação (o RT) como forma de socialização e interação. Tudo isso com o diferencial de objetividade de conteúdo (140 caracteres) e inclusão de hiperlinks, resultando num poderoso objeto social em tempo real, que leva seguidos e seguidores a um proceso de nagevação contextualizada na web.

Entender e aplicar pelo menos uma parte disso é o que chamo de twitter litteracy. Claro que não se pode exigir de qualquer tuiteiro a aplicação irrestrita do conceito proposto pela ferramenta. No mínimo, utópico. Mas, há que se refletir sobre a sistemática transposição de conceitos e indicadores da “velha mídia” que as twitter celebrities tupiniquins praticam e acabam por virar referência de como usar esta incrível rede social.

Acabei por criar uma listinha de pequenos desvios de uso do twitter que merecem discussão por parte do leitores do Intermezzo. Penso que cada um dos itens é um novo post/comentários em potencial:

  • Foco constante na ampliação da quantidade de seguidores, não importa quem são, como e de onde foram capturados. Algo parecido com índices de audiência e de circulação de tempos quantitativos de mensuração.
  • Extrema dificuldade em produzir algo coerente e útil para os seguidores em 140 caracteres. Algo de “torpedos” aparece como resultado.
  • Culto ao ego e respectivas peripécias vida afora. Sem falar de egos que rapidinho viram “nós” e portadores da opinião coletiva. Algo de “narciso” cai bem.
  • Uso da rede de seguidores (que sempre deve ser grande como símbolo de sucesso…) para realizar enquetes nonsense, fazer propaganda velada ou explícita de produtos, serviços, eventos e que tais. Algo de comercial em causa própria  parece adequado.
  • Disseminação  do mau uso da mal-tratada Língua Portuguesa: pontuação, erros de grafia, concordância, e similares. Algo de irresponsável é cabível.
  • Desagradável tendência em alardear que o twitter é um grande brincadeira ou parque de diversões. O momento de descontração, lazer e tornar-se igual por parte da celebridade ou do guru. Algo de imaturo fica no ar.
  • Raríssima condição para a proposição de objetos sociais em seus posts. Por acaso algum link, alguma foto, algum ponto de ancoragem que gera conhecimento foram propostos para os seguidores?  Algo de…..

Claro  que poderia  continuar listando, ou criticando. Mas, gostaria de propor aos leitores uma pausa prá olhar a cena e sermos razoavelmente criteriosos em nossa função comunicacional.

A grande maioria dos pontos indicados já ocorreu em momentos anteriores do mundo ciber, desde a descrença ancestral dos profissionais no potencial de comunicação da web, até descaracterizações mais recentes como no caso dos blogs (já discutido no Intermezzo). O que decepciona é que, quase sempre, influentes gurus da comunicação e mobilizadores das massas, preferem usar errado ao invés de buscarem aprender, conhecer e exercer adequadamente o uso de uma nova mídia.  Fica mais fácil bagunçar e manter o status quo do que se dar ao trabalho de fazer do modo correto. Afinal, o que importa é o volume de uma audiência em aplauso embevecido, e não a qualidade da mensagem, ainda que para poucos multiplicadores.

Ufa! Breve desabafo pessoal (portanto, sem links e referências autorais) neste último post de 2009.

Merry, merry Christmas e and a very happy new year!!!!!!!!

Em tempo: esse post tem caráter genérico e, propositadamente, não cita qualquer identidade no twitter que venha a contextualizar a opinião.

(Beth Saad)

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