O painel em ação

O painel em ação

Ao que tudo indica (confiram o blog), o painel “A crise da mídia tradicional. Quem vai publicar as notícias que vão alimentar a conversa?” colocou pimenta nos olhos dos participantes e da platéia. Para mim, como mediadora, foi uma ótima oportunidade de reiterar ao vivo e a cores todas as opiniões que venho postando aqui no Intermezzo em tempos recentes: as tradicionais marcas de mídia no Brasil posicionam-se entrincheiradas e resistentes à inovação.

Assistimos a um interessante embate entre egos das personalidades mais conhecidas presentes, até com o surgimento de uma nova denominação para as mídias tradicionais: agora é de bom tom referir-se a elas como “mídias clássicas”. Também assistimos a uma tentativa de desvio temático no painel, onde quase todos os participantes centraram-se no antagonismo novas e velhas mídias.

A proposta de discussão do painel nunca esteve centrada nesse antagonismo. Pelo contrário. O objetivo do painel sempre foi discutir algo mais amplo: a mudança de postura estratégica e cultural de nossas empresas de mídia a partir das tendências globais hoje em curso; o novo patamar de relacionamento com os públicos, integrando a força das redes sociais; e a busca de um novo modelo de negócios dentro do novo contexto. Para contextualizar as discusões, o jornalista Clayton Melo do IDGNow publicou uma excelente entrevista com esta escriba  no blog do evento, e também foi disponibilizada a apresentação que fiz como introdução ao tema.

Embates e egos à parte, o painel resultou numa demonstração de que seus temas principais não eram o foco de atenção de nossos publishers. Ficamos sem saber as respectivas opiniões sobre o que interessa: o mundo da informação digital está mais uma vez em transição e qual seria o posicionamento do Estadão, da Época, da CBN e de um especialista sobre o que vem pela frente?

Durante minha introdução ao tema do painel nossos colegas foram instigados com interessantes vertentes da discussão: a síndrome da periodicidade versus fluxo informativo contínuo; o uso desconfigurado do blog como coluna de opinião e do twitter como substituto de feeds RSS; a integração da voz e opinião dos usuários; e as diferentes formas de geração de receitas. Nada disso pareceu perturbar nossos tótens jornalisticos ali fincados.

Para o Digital Age 2010 proponho colocar pimenta malagueta da boa na mesa: que tal o debate com que já vivencia transição e mudança mundo afora?

(Beth Saad)

A história já provou: a novidade atrai os novos profetas. Não que mídias sociais sejam novidade, afinal, aquelas que reúnem jogadores de videogame já existem e já são exploradas comercialmente há quase uma década. Mesmo assim, não podemos negar o zunzunzum atual em torno delas.

Na esteira desse movimento, surgiram nos últimos meses dezenas de empresas e consultores “especialistas” em redes sociais. Entretanto, o que se tem visto até o momento são ações e conselhos baseados no achismo ou no “feeling”.

Se olharmos para trás, iremos encontrar algumas saídas que nos tirarão deste empirismo. Na sociologia, o campo que dá conta deste assunto é o da Análise de Redes Sociais (SNA, em inglês). Ele se dedica a propor métodos para a mensuração das relações de poder e influência, identificar pontos de concentração das informações, enfim, trata-se de uma área multidisciplinar – e, por isso, fascinante – que envolve, além da própria sociologia, estatística, matemática, comunicação e tecnologia.

Conhecer um pouco mais sobre SNA nos leva a questionar certas ações propostas por esses profissionais que, no fundo, não oferecem embasamento ou indicadores claros que permitam mensurar a real eficácia de uma ação de comunicação realizada neste tipo de ambiente.

Por exemplo, um dos melhores perfis para realizar ações no Twitter seria o de Marcelo Tas. Afinal,  ele é dono de uma rede com mais de 280 mil seguidores. Logo, qualquer mensagem chegará a praticamente todos os rincões da “twittersfera”. Entrentanto, aplicando a metodologia de mensuração da SNA, veremos que isso não é verdade. Como a maioria dos seguidores de Tas são atraídos pela sua popularidade na TV ou por matérias na imprensa sobre o Twitter, essas pessoas não têm muitos seguidores de segundo nível. Basta conferir a lista de followers do jornalista para verificar o quão difícil é encontrar um perfil que tenha mais de 50 seguidores.  Resumindo, uma mensagem difundida por ele perde força já na primeira camada da rede. Por outro lado, perfis com menos seguidores de primeiro nível, mas com uma rede de segundo nível mais concentrada, têm potencial e eficácia de comunicação muito maiores.

No exemplo hipotético a seguir, podemos observar isso. Suponhamos que Tas possui 6 seguidores e cada um deles é seguido por outras 2 pessoas. Se toda a rede de primeiro nível retuitar o jornalista, a mensagem original chegará a 18 usuários. O segundo usuário tem menos seguidores de primeiro nível (3), porém eles possuem uma rede de segundo nível muito mais forte, com 8 seguidores cada. Logo, se uma mensagem for retransmitida por toda a rede, ela chegará a 27 pessoas, ou seja, 50% a mais em relação à Tas.

rede_tas

A partir desta observação, quem você sugeriria para uma ação em redes sociais? Por esse motivo, na próxima vez que for contratar um consultor ou uma empresa “especializada” em redes sociais, pergunte como andam os conhecimentos em SNA.

Para quem quer se aprofundar em comunicação na redes sociais sugiro conhecer inicialmente o trabalho da Orgnet e comparar com aquilo que é oferecido no Brasil pelas ditas agências 2.0. Em seguida, vale uma parada no site da International Network for Social Network Analysis. Por fim, indico a leitura do e-book Introduction to Social Network Methods, que oferece uma bela visão sobre o tema. Com isso, você estará bem munido para encarar de forma crítica os argumentos e as proposta superficiais desses novos profetas da web 2.0.

(Andre de Abreu)

O Estadão de hoje (24/08/09), em seu caderno Link, dedica várias páginas ao tema blogsfera e sua possível “morte”. Destacam-se a matéria sobre o blog do Planalto, a entrevista de Steve Rubel, analista e consultor web norte-americano e autor do blog Micropersuasion;  e a coluna de Pedro Dória. Os dois comentaristas, de uma maneira ou de outra, preconizam não mais escrever em blogs, seja pela falta de tempo, seja pelo esgotamento da ferramenta. E o blog do Planalto aparece como algo um tanto defasado do contexto atual, tema já discutido aqui, à exaustão. (no momento em que escrevo esse post o Link ainda não tinha atualizado todas as matérias da edição de 24/08/09).dmorte_blogsfera

Ao que parece, mais uma vez temos um conteúdo chamativo, midiático, mas com pouca sustentação de base analítica. Mais um buzz pinçado na onda das mídias sociais.

Deixo aqui meu depoimento como blogueira desse Intermezzo, usuária das mídias sociais e analista.

Até um passado recentíssimo – prá não dizer do próprio presente – o foco das discussões sobre mídias sociais era como integrar todas as ferramentas e possibilidades dos diálogos e conversações às propostas do que chamamos “mídias tradicionais” na web. A questão da participação e da expressão do usuário protagoniza as decisões de gestores de portais, editores de marcas jornalísticas, entre outros. Como integrar? Como estar presente no Twitter? Ter uma página do Facebook? São temas cotidianos ainda não solucionados.

Surge agora um novo foco: a integração dentro do próprio âmbito das mídias sociais.

O termo complementariedade é fundamental. Cada uma das ferramentas  – blog, twitter, facebook, por exemplo, possuem características próprias de estilo narrativo e forma de relacionamento com os leitores/usuários/seguidores. O que postamos num blog, bastante opinativo e correlacional, pode ser condensado em 140 caracteres para o twitter, que prima pela objetividade informativa e multiplicação de idéias, e pode ser propagado num facebook por meio de um convite para a rede de amigos à leitura  e comentários do post.

A experiência nesse Intermezzo tem sido nosso campo de provas sobre tal proposição. Percebemos, cada vez mais, que nossa audiência a cada post vem direcionada pelas nossas micro-postagens nas redes sociais; e que em médio e longo prazo a audiência para o blog em geral e seu conteúdo passado vem das ferramentas de busca. Os comentários, quase sempre canalizados nas redes sociais. Nada mais complementar! e, por outro lado, nada mais trabalhoso! Estar na rede, hoje, se confiigura cada vez mais numa ação de envolvimento e engajamento contínuos.

Com isso, não parece adequada a afirmação sobre a morte da blogsfera. O que temos, claramente, é uma reconfiguração de objetivos, aonde o blog se identifica com o website de destino do usuário para aprofundamento da informação e conhecimento mais amplo da opinião autoral; o twitter como a “plataforma de embarque” dos usuários da rede num dado tipo de conteúdo; e o Facebook e similares, como plataforma de diálogo e conversação complementar aos comentários postados no próprio blog – quase uma Ágora contemporânea.

Para quem está nesse mundo conectado por paixão e/ou profissão, só nos resta torcer pelo surgimento de plataformas integradoras (já existem várias) que juntem blog, twitter, redes sociais num mesmo espaço de operação e controle.  Ou seguir a recomendação de Steve Rubel e adentrar ao Lifestreamming. Só vejo muito trabalho pela frente.

(Beth Saad)

Aproveitando a passagem do professor de Navarra José Luis Orihuela por São Paulo, acontece na próxima quinta (27/8/2009) o Beers & Blogs São Paulo, um encontro informal para discutirmos e trocarmos experiências sobre o uso de blogs, twitters e novas tecnologias na comunicação.

Beers & Blogs em São Paulo
Qué: una reunión informal de bloguers
Cuándo: el jueves 27 de agosto (quinta-feira) de 2009 a las 20 hs.
Dónde: Cervejaria Braugarten (Shopping Paulista), Rua Treze De Maio, 1947, lj. 422, Bela Vista
Convocan: Intermezzo, Webmanario y eCuaderno

Participem e até quinta!

Este vídeo é um tanto defensor das mídias sociais. Particularmente tenho um constante trabalho de reconhecimento e de aplicação dos usos das mídias sociais. Publico aqui para compartilhar com vocês. Apesar de conter alguns chavões para um público bem informado como o deste blog, acho bem feito e estruturado. (Ana Lucia Araujo)

Você conhece o Dave Carroll, ao lado, na foto? Também não o conhecia antes do clipe “United Breaks Guitars” e, mais recentemente, do “United Breaks Guitars: Song 2”. Resumindo a história que outros sites já contaram, o cantor canadense teve seu violão extraviado pela United Airlines. Após nove meses de ligações, ele recebeu a resposta definitiva de que não seria ressarcido e prometeu fazer com que todos conhecessem sua saga por meio do YouTube.

Com a indiferença dada ao caso, a United tem tudo para se juntar ao rol de empresas que tiveram suas marcas maculadas na web, entre elas Domino’s, Amazon e Kryptonite. Todas essas histórias nos levam a refletir sobre o futuro das assessorias e do assessor de imprensa.

É difícil encontrar uma empresa que hoje não tenha uma assessoria de imprensa. A explicação é simples: uma manchete negativa ou uma opinião contrária de um colunista pode arruinar uma corporação da noite para o dia. No Brasil, ainda temos um agravante. Esta é uma função exercida de forma predominante por jornalistas, que, pela formação, tendem a enxergar a comunicação apenas por esse viés, e não de forma ampla. O resultado? Existe uma massa de profissionais especialistas em imprensa, porém são poucos os preparados para lidar com o público e suas manifestações nas redes sociais.

Temos aí um cenário crítico para as empresas. Com as redes digitais ganhando relevância e os meios de comunicação tradicionais perdendo sua importância social, principalmente frente às novas gerações, a maioria das corporações está praticamente indefesa e sem saber lidar com seus daves carrolls.

A partir do momento que as mídias sociais passarem a influenciar mais os negócios do que aquilo que sai nos jornais, a tendência é o digital deixar de ser nicho para se tornar o principal motivo da atenção, investimento e preocupação das companhias. Tanto é que empresas como Coca-Cola, PepsiCo, Southwest e Ford já têm seus diretores de mídia social.

Este novo profissional tem a tarefa básica de ser sensível às demandas das pessoas e capaz de identificar tendências para que elas se transformem em melhorias de produtos e processos, ou seja, essa pessoa acaba atuando como uma “parabólica” capaz de captar e organizar para a empresa a comunicação que emana de comentários e discussões de internautas nas mídias sociais. Fechado essa parte do ciclo, a comunicação volta no sentindo empresa > usuário para que as devidas satisfações sejam dadas. Os cases reunidos pelo Wall Street Journal destas quatro empresas que possuem executivos dedicados às redes sociais só comprovam isso.

Está chegando ao fim a era na qual as empresas simplesmente impunham serviços e produtos aos consumidores. Assistimos ao início de uma fase em que isso é construído e debatido em conjunto com os próprios usuários desses serviços e produtos, aliás, algo que a turma do software livre já pratica há tempos.

No final das contas, não são releases e nem almoços de relacionamento que melhorarão a imagem da United diante das 5 milhões de pessoas que já assistiram ao primeiro vídeo de Carroll e das 40 mil que viram o segundo clipe desde o último domingo. Sem contar as camisetas comercializadas pela Zazzle com o refrão da música, as aparições do cantor na Oprah Winfrey, Fox, CNN e CBS e a repercussão mundial – inclusive no Brasil – do fato de que a “United Quebra Violões”.

(Andre de Abreu)

ForumMidiasSociais140709 (11)Esse post surge na sequência da palestra que fiz no Fórum de Mídias Sociais, em 14/07/2009, em Brasília. O evento foi organizado pela SECOM – Secretaria de Comunicação da Presidência da República. Pelo título já podem inferir minhas impressões iniciais: ainda faltam muitos passos no percurso digital; ainda é preciso entender e se posicionar na web 1.0 prá depois se encantarem com blogs, campanhas tipo Obama e similares; ainda bem que prestaram atenção no tema.

Tentando resumir toda a cena:

Encontrei ali alguns poucos núcleos de percepção e uso contemporâneo da web e das redes sociais, a exemplo do Ministério da Cultura, com uma interessante equipe envolvida e atualizada e com uma política de Cultura Digital definida e com um projeto de ação no mundo das redes; também o Ministério da Saúde, utilizando a web na linha de prestação de serviços e esclarecimento à população, em formato muito oportuno; a própria SECOM buscando construir o novo Portal e lançando a versão beta do Blog do Planalto, com um sério esforço em compor uma equipe jovem e atualizada, mas com uma boa dose de limitações estruturais e, especialmente, culturais e políticas diante da perspectiva de diálogo em rede.

Primeira visualização oficial do Blog do Planalto

Primeira visualização oficial do Blog do Planalto

Encontrei ali, também, uma platéia lotada (precisou colocar telão no saguão do auditório), constituída de assessores de comunicação dos diferentes órgãos governamentais. Uma platéia que me passou a sensação de que eu “falava grego” mas, que esse grego era o que todos deveriam ter aprendido, mas perderam o bonde e, agora, a sociedade lhes cobra atualização.

Encontrei ali núcleos de resitência diante do novo. Normal em qualquer processo de inovação tecnológica paradigmático. Resistência um tanto agravada quando falamos de Governo, onde os profissionais estão mais preocupados em buscar a PortariaX que vai respaldar sua ação de comunicação tradicional e possibilitar, por exemplo, processar por falsidade ideológica o usuário que copia e cola material do site. (Por favor, não generalizem essa visão).

E a comunicação de governo no mundo digital, como fica?

Em meio à cena descrita essa foi a pergunta inevitável. Da mesma forma que o colega Emerson Luís, assessor de comunicação  da Dataprev e uma das poucas “luzes” ali presentes, descreve o evento em seu blog e relata como o tema mídias sociais deixou todos atônitos, eu fiquei pessoalmente atônita com a falta de uma real política de comunicação do governo para o mundo digital. Afinal, o que o governo e suas diversas entidades quer dizer para os 62 milhões de internautas brasileiros? Sob qual imagem e identidade de marca? Qual o branding e a reputação digital que sustentam a presença do “.gov.br” na rede? Qual o plano de comunicação digital, respectivas ferramentas, plataformas e narrativas?

Fica um tanto difícil responder a essas indagações quando vi ali o próprio ministro da SECOM dizer alto e em bom som na abertura do evento o discurso que corre em uníssono por entre os jornalistas de velha cêpa (acho que todos combinaram entre si): o público quer, precisa e não conhece outra forma de ser informado a não ser pela fórmula de notícias 24×7, preferencialmente apresentadas por um jornal impresso e, sempre editadas (já que o público precisa da edição para entender o mundo…). Em tempo: de forma alguma nego ou rejeito o bom e velho jornalismo (sou eterna leitora de meu Estadão impresso todas as manhãs). Ocorre que esse formato hoje não é único e nem hegemônico. Existem outras formas e fontes de informação (as digitais, as sociais) que entram na cesta de escolhas informativas de todos nós. É preciso saber conviver com a diversidade.

Permanece a dificuldade em responder às tais indgações básicas quando vemos a proposta do Blog do Planalto. A visualização de conteúdo apresentada explicitou, de cara, material editado e com narrativa piramidal do meio impresso. E aquelas ferramentas mínimas de um blog? O uso de hiperlinks? Uma nuvem de tags? (até tinha, a nuvem de assuntos, mas escondida ao final da terceira tela de rolagem) Posts mais populares? Enfim, coisas básicas para um blog que já na concepção definiu a não aceitação de comentários (OK, questionável, mas aceitável diante da responsabilidade da empreitada). Ficou a percepção de que era preciso ter um blog como passaporte para o mundo contemporâneo da rede. Mas, qual a sua política editorial? Em tempo: é pública a escolha, por meio de edital da SECOM, de uma empresa que é responsável pela execução do Portal do Governo e por sua comunicação digital. Estão trabalhando, aguardemos. Mais em tempo: é visível a seriedade da equipe da SECOM sobre o tema.

Rumos e possibilidades

Minha postura no mundo é de otimismo. Em qualquer situação.

Evidente que em termos de mundo das redes não é possível correr atrás do prejuízo. E, no caso da comunicação digital de governo no país o déficit é grande: há que se mudar a cultura em todos os níveis; há que se melhorar primeiro as ações 1.0, já que muitos websites, portais estão aquém do estado-da-arte; há que se evangelizar (e treinar explícitamente) pessoas, funcionários, assessores, colaboradores; há que se entrar no ritmo digital.

Não serão blogs soltos no ciberespaço que resolverão um processo muito mais amplo. O potencial comunicativo de governos na rede é imenso. No exterior existem organismos profissionais que estudam, analisam e aconselham ações de governos digitais. No Brasil também existem iniciativas, ainda tímidas.

Se não é possível correr atrás do prejuízo o melhor é queimar etapas e tomar o bonde num ponto mais adiante.

(Beth Saad)

PS: para saber um pouco mais do que rolou no eveno vejam a #prmidias no twitter.

2006042700_the_blog_345Na esteira do buzz sobre o Fatos e Dados, da Petrobrás tive acesso a um interessante conjunto de opiniões e posições das mais diversas fontes – jornalistas, pesquisadores, profissionais de mercado, curiosos, entre outros. Disso tudo ficou muito claro que o calor das discussões acaba por deixar de lado a essência do tema: o uso do blog como uma ferramenta de mídia social.

Pelo lado dos jornalistas e das empresas jornalísticas a discussão ficou centrada na relação fonte-veículo e também no uso do blog como mídia. Os profissionais de comunicação tinham por foco a quebra do paradigma da mediação e a possibilidade concreta de uso das ferramentas de mídia social para isso, mas com uma sucessão de dúvidas sobre como e para que. Pesquisadores e a academia mantiveram-se à distância, como usual. Usuários e blogueiros, no mínimo, fizeram a festa. Tais opiniões refletem a diversidade de compreensão dobre o que na realidade são e para que servem os blogs.

Claro que não vou aqui nesse Intermezzo discorrer sobre as origens do blog nos diários pessoais,  sobre a quantidade de autores que discutem cientificamente o  tema (sim, blogs há tempos são objeto de pesquisa!) ou sobre seu uso nos mais diferentes campos de atividade. Existem muitas fontes para isso na própria web, prá começar. Gostaria, de indicar dois pontos-chave que condicionam o uso (adequado ou não) do blog em nossa rotina comunicacional:

1. A confusão entre plataforma de publicação e ferramenta de mídia social

Desde suas origens o blog  trouxe uma característica muito atraente para qualquer usuário da web: a possibilidade de publicar e estar presente na grande rede, gratuitamente e sem esforços técnicos de especialista. Com isso, plataformas como WordPress e Blogger possibilitaram a existência dos 133 milhões de blogs registrados, segundo o último relatório sobre a Blogsfera do Techoratti. Com isso, surgem em ritmo de pãozinho quente os mais diversos tipos de propostas de conteúdo utilizando esse caminho rápido e fácil de publicação, confundindo o uso social da  ferramenta com uma forma de construir um website. O que temos, em muitos e muitos blogs, são o que chamo de blogsites: uma página na web, que pouco explora as características oferecidas pela plataforma que configurariam o blog como uma mídia social.

Com isso, os posts acabam se transformando em longos textos com tom de press release ou de discurso individualista; comentários inexistem ou parecem construídos; resposta a comentários é algo fora de questão; blogroll entra na lista das incompreensões; nuvem de tags, como assim?;  feed RSS, widgets integradores com outras ferramentas e as APIs mais recentes estão fora de cogitação.

Ok! São muitas as exigências? Talvez, mas se todas essas funcionalidades não forem exploradas parece-me inadequado chamar a página de blog. Que se publiquem milhares de páginas, mas por favor, só vamos chamar de blog aquelas que  honrem o termo. Não tem problema chamar de website. a plataforma não condiciona a denominação.

2. A fetichização do blog

Blogs sempre fizeram sucesso. Daí que criar e alimentar um blog “passou” a ser símbolo de atualidade e contemporaneidade, algo como uma passagem para o mundo 2.0. Seria isso mesmo? As aspas no “passou” são propositais.

Hoje assistimos a uma onda:  o blog do presidente da empresa X, o blog do governo Y, o blog do candidato Z, o blog do Sr. N…..e assim vamos engordando a blogsfera, como se blogs fossem a solução para a presença no mundo 2.0.

Bem, é preciso ir para além da ferramenta e do fetiche. É preciso olhar para a efetividade de um blog. Primeiro, porque blog que é blog dá trabalho, toma tempo e exige envolvimento real do autor: escrever posts, responder aos comentários, manter atualidade e periodicidade, disseminar pelas redes e listas, inserir hiperlinks oportunos, pensar nas formas de ampliação do tráfego, entre outras atividades. Segundo, porque efetividade tem tudo a ver com repercussão, replicação, discussão: características inerentes a um conteúdo de interesse para os usuários/leitores. E, terceiro, porque o blog é apenas uma parte de um processo estruturado, planejado e estratégico de atuação no mundo 2.0.

Na verdade, o blog utilizado  em sua plena capacidade, por assim dizer, deve ser considerado como objeto social: uma ambiênica digital que agrega idéias e opiniões compartilhadas, discutidas e ampliadas por um conjunto de pessoas com um interesse comum, utilizando para isso uma diversidade de ferramentas, funcionalidades e micro-sistemas que facilitam, dinamizame ampliam o processo como um todo. Apenas isso.

E o seu blog, é blog? what-is-a-blog

(Beth Saad)

Desde o dia 2/06/2009 estamos acompanhando o impacto do lançamento e as repercussões do blog Fatos e Dados da Petrobrás. Um embate de gente grande, de um lado o poder da maior empresa brasileira que, além de tudo, é estatal; e de outro os grandes jornais do país, representando o poder da informação. No meio disso tudo a questão forte: uma efetiva e perigosa quebra da relação fonte-veículo de informação. A Petrobrás, ao publicar no blog perguntas e respostas a ela enderaçadas pelos jornais O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo e O Globo (um material tipicamente de apuração) coloca em questão a atividade mais básica do jornalismo que é a edição. Isso sem falar que tal atitude também põe no mesmo pacote o papel de mediação, a credibilidade, a ética, entre outros pontos fundantes.

Na origem, o blog foi criado, segundo texto da própria empresa para apresentar “fatos e dados recentes da Petrobras e o posicionamento da empresa sobre as questões relativas à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI)“. Tudo certo, em princípio, pois, num momento de dinamismo comunicacional a Petrobrás optou pelo formato blog, bastante adequado à situação. Esse Intermezzo não vai detalhar ainda mais o tema sob o ponto de vista dos preceitos jornalísticos. Muitas foram as avaliações e destacamos os posts dos professores Rogério Christofoletti e Wilson Bueno, e do blog Dicas de um Fuçador. Sem contar, claro, com a enormidade de posts que surgem no Twitter. Em resumo, a Petrobrás apenas faz uso daquilo que está disponível gratuitamente da web para posicionar-se. Se ela usa adequadamente ou não é tema para outro post.

Gostaria de comentar, um pouco mais, sobre o fato de que, uma grande empresa estatal, ao entrar no mundo da web 2.0, se constituindo como um novo pólo de emissão na rede, ameaça os tradicionais emissores de nossa sociedade em seu papel constituído do Quarto Poder. O fato, em seu todo, inaugura uma nova etapa de reconstituição de forças do poder da informação, só possível nos ambientes de mídias sociais. A gritaria geral da imprensa tradicional (hiper justificável pela questão jornalística) também se dá pela incapacidade de nossos veículos se defrontarem com a prática da web 2.0 e sua multiplicidade de vozes.

Para essa discussão remeto ao texto do professor Jeff Jarvis que analisa a convivência entre jornalismo e blogs em recente ação do The New York Times. Sua frase: “...here we see a clash over journalistic culture and methods – product journalism v. process journalism” deixa claro que a questão é cultural e essencialmente de método.  Penso ir mais adiante vinculando cultura e métodos ao ambiente de mídias sociais em redes digitais.

O primeiro ponto é saber se as empresas informativas sabem como agir em rede. Se sabem o que significa para sua marca, imagem e credibilidade informativa estar em paridade com múltiplos emissores, jornalísticos ou não, e especialmente dialogar com os elos fortes e fracos de múltiplas redes. A novidade para os grandes nomes da mídia tradicional, ao que parece, é buscar um novo papel para si nesse cenário: ser o influenciador favorito para os usuários/leitores. Como se destacar em intensidade, importância e referência, diante de um conjunto diversificado que compõe as redes sociais na web.

No caso específico do blog da Petrobrás como, apesar da força informativa que a empresa pretende impor, tornar-se o provedor de informação favorito para os interessados no tema. É possível?

O segundo ponto, bem mais sensível, é a mudança cultural e formativa do profissional. Aqui a palavra-chave é mudança. Irreversível. O que assistimos, hoje, no ambiente brasileiro é um descompasso no ritmo dessas mudanças. No presente momento vemos a academia, Ministério da Educação e as entidades representativas da indústria em discussão “lenta e gradual” das novas diretrizes curriculares para os cursos de jornalismo e da obrigatoriedade do diploma, pautados pelos preceitos da preservação da espécie; e de outro lado temos o ambiente em ebulição, que faz suas mudanças a toque de caixa, que exige posturas de ação-reação típicas do meio digital e que deixa prá trás quem está fora de compasso.

Nesse contexto, estariam os nossos profissionais preparados para a dinâmica contemporânea? Profissionais, empresas informativas e escolas querem efetivamente promover mudanças? Rápidas?

Por fim, enquanto as empresas informativas buscam entender o que é estratégia de diferenciação no mundo 2.0, e  a academia e as instituições hesitam em absorver uma nova cultura, corre em paralelo o embate entre o padrão de produção e consumo da informação no impresso e no online. Na era da informação 2.0, para Jeff Jarvis, o “mito da perfeição”  de processo jornalístico que todo profissional almeja entra em crise quando confrontado ao novo patamar de relacionamento e diálogo exigido por um ambiente de multiplicidade de vozes.

Na verdade, o blog da Petrobrás apenas desencadeou uma discussão que estava abrigada no nível subliminar de nosso Jornalismo. A ponta de um enorme iceberg de rota desconhecida.

(Beth Saad)

Bem, se a saída à crise ou à transformação de todo o business informativo está nos modelos alternativos, vejam alguns apresentados no ISOJ.

nowpublicO primeiro deles é o informativo canadense NowPublic, baseado na lógica do crowdsourcing. O site publica informações de fontes alternativas – blogs, Twitter, Flickr, YouTube, oferecendo ferramentas e recursos editoriais para que tais informações sejam disponibilizadas de forma adequada aos preceitos e valores do jornalismo.

O crowdsourcing pode ser definido como um modelo de produção que utiliza a inteligência e os conhecimentos coletivos e voluntários espalhados pela internet para resolver problemas, criar conteúdo ou desenvolver novas tecnologias. O crowdsourcing comporta a noção de que o universo dos internautas pode fornecer informações mais exatas do que peritos individuais.

O modelo do NowPublic foi criado por três empreendedores/investidores que já operavam no mercado de tecnologia da informação e que perceberam o potencial do sistema – as informações são enviadas ao site e este também coleta conteúdo de fontes alternativas, fazendo com que o criador do conteúdo seja valorizado pelo trabalho realizado pela enxuta redação. Com isso, tem-se uma operação de baixo custo e, ao mesmo tempo, totalmente voltada à participaçõa dos usuários.

politicocomUm segundo modelo enfatiza o chamado jornalismo de nicho. O site Politico.com caracteriza-se como uma operação jornalística na web, com um complemento em versão impressa, voltada exclusivamente à cobertura de Washington, a Casa Branca, o Congresso e todas as informações paralelas que circulam no centro do poder.

O diferencial nesse caso é o estilo da cobertura, que resulta num conteúdo atraente par ao usuário. A idéia é buscar fontes alternativas de informação (não aos porta-vozes!), fazer os repórteres frequentarem locais  e eventos não-políticos, dar espaço aos lobistas, entre outras formas de geração atraente.

propublicaUm terceiro modelo está voltado para uma operação sustentada por uma Fundação privada, a Sandler Foundation, de um casal norte-americano mecenas, que acredita na necessidade de uma sociedade mais justa, democrática e informada. Com isso surgiu o ProPublica.org, uma redação sem fins lucrativos, que se propõe a uma cobertura investigativa independente, focada em assuntos de “força moral”, segundo definição de seus editores.

A idéia do site foi proposta pelo ex- jornalista do The Wall Street Journal, Paul Steiger que recebu apoio para tornar o jornalismo investigativo protagonista, uma vez que o mesmo tem sido pouco considerado pela mídia tradicional. A proposta de um modelo de mecenato baseia-se na idéia de que há necessidade de construir uma marca sólida, vinculada à independência de investigação, para posteriormente bbuscar um modelo comercial par ao site.

Além desse três modelos, foram discutidos no Simpósio o conhecido The Huffington Post, o San Diego News Network, o inDenver Times, o Spot.us e o The Batavian, todos baseados em algum modelo que correlaciona UGC, participação e baixo custo operacional.

Fica a pergunta que não que calar: como estamos no Brasil? temos modelos alternativos?

(Beth Saad)

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