Desde o dia 2/06/2009 estamos acompanhando o impacto do lançamento e as repercussões do blog Fatos e Dados da Petrobrás. Um embate de gente grande, de um lado o poder da maior empresa brasileira que, além de tudo, é estatal; e de outro os grandes jornais do país, representando o poder da informação. No meio disso tudo a questão forte: uma efetiva e perigosa quebra da relação fonte-veículo de informação. A Petrobrás, ao publicar no blog perguntas e respostas a ela enderaçadas pelos jornais O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo e O Globo (um material tipicamente de apuração) coloca em questão a atividade mais básica do jornalismo que é a edição. Isso sem falar que tal atitude também põe no mesmo pacote o papel de mediação, a credibilidade, a ética, entre outros pontos fundantes.
Na origem, o blog foi criado, segundo texto da própria empresa para apresentar “fatos e dados recentes da Petrobras e o posicionamento da empresa sobre as questões relativas à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI)“. Tudo certo, em princípio, pois, num momento de dinamismo comunicacional a Petrobrás optou pelo formato blog, bastante adequado à situação. Esse Intermezzo não vai detalhar ainda mais o tema sob o ponto de vista dos preceitos jornalísticos. Muitas foram as avaliações e destacamos os posts dos professores Rogério Christofoletti e Wilson Bueno, e do blog Dicas de um Fuçador. Sem contar, claro, com a enormidade de posts que surgem no Twitter. Em resumo, a Petrobrás apenas faz uso daquilo que está disponível gratuitamente da web para posicionar-se. Se ela usa adequadamente ou não é tema para outro post.
Gostaria de comentar, um pouco mais, sobre o fato de que, uma grande empresa estatal, ao entrar no mundo da web 2.0, se constituindo como um novo pólo de emissão na rede, ameaça os tradicionais emissores de nossa sociedade em seu papel constituído do Quarto Poder. O fato, em seu todo, inaugura uma nova etapa de reconstituição de forças do poder da informação, só possível nos ambientes de mídias sociais. A gritaria geral da imprensa tradicional (hiper justificável pela questão jornalística) também se dá pela incapacidade de nossos veículos se defrontarem com a prática da web 2.0 e sua multiplicidade de vozes.
Para essa discussão remeto ao texto do professor Jeff Jarvis que analisa a convivência entre jornalismo e blogs em recente ação do The New York Times. Sua frase: “...here we see a clash over journalistic culture and methods – product journalism v. process journalism” deixa claro que a questão é cultural e essencialmente de método. Penso ir mais adiante vinculando cultura e métodos ao ambiente de mídias sociais em redes digitais.
O primeiro ponto é saber se as empresas informativas sabem como agir em rede. Se sabem o que significa para sua marca, imagem e credibilidade informativa estar em paridade com múltiplos emissores, jornalísticos ou não, e especialmente dialogar com os elos fortes e fracos de múltiplas redes. A novidade para os grandes nomes da mídia tradicional, ao que parece, é buscar um novo papel para si nesse cenário: ser o influenciador favorito para os usuários/leitores. Como se destacar em intensidade, importância e referência, diante de um conjunto diversificado que compõe as redes sociais na web.
No caso específico do blog da Petrobrás como, apesar da força informativa que a empresa pretende impor, tornar-se o provedor de informação favorito para os interessados no tema. É possível?
O segundo ponto, bem mais sensível, é a mudança cultural e formativa do profissional. Aqui a palavra-chave é mudança. Irreversível. O que assistimos, hoje, no ambiente brasileiro é um descompasso no ritmo dessas mudanças. No presente momento vemos a academia, Ministério da Educação e as entidades representativas da indústria em discussão “lenta e gradual” das novas diretrizes curriculares para os cursos de jornalismo e da obrigatoriedade do diploma, pautados pelos preceitos da preservação da espécie; e de outro lado temos o ambiente em ebulição, que faz suas mudanças a toque de caixa, que exige posturas de ação-reação típicas do meio digital e que deixa prá trás quem está fora de compasso.
Nesse contexto, estariam os nossos profissionais preparados para a dinâmica contemporânea? Profissionais, empresas informativas e escolas querem efetivamente promover mudanças? Rápidas?
Por fim, enquanto as empresas informativas buscam entender o que é estratégia de diferenciação no mundo 2.0, e a academia e as instituições hesitam em absorver uma nova cultura, corre em paralelo o embate entre o padrão de produção e consumo da informação no impresso e no online. Na era da informação 2.0, para Jeff Jarvis, o “mito da perfeição” de processo jornalístico que todo profissional almeja entra em crise quando confrontado ao novo patamar de relacionamento e diálogo exigido por um ambiente de multiplicidade de vozes.
Na verdade, o blog da Petrobrás apenas desencadeou uma discussão que estava abrigada no nível subliminar de nosso Jornalismo. A ponta de um enorme iceberg de rota desconhecida.
(Beth Saad)
Bem, se a saída à crise ou à transformação de todo o business informativo está nos modelos alternativos, vejam alguns apresentados no ISOJ.
O primeiro deles é o informativo canadense NowPublic, baseado na lógica do crowdsourcing. O site publica informações de fontes alternativas – blogs, Twitter, Flickr, YouTube, oferecendo ferramentas e recursos editoriais para que tais informações sejam disponibilizadas de forma adequada aos preceitos e valores do jornalismo.
O crowdsourcing pode ser definido como um modelo de produção que utiliza a inteligência e os conhecimentos coletivos e voluntários espalhados pela internet para resolver problemas, criar conteúdo ou desenvolver novas tecnologias. O crowdsourcing comporta a noção de que o universo dos internautas pode fornecer informações mais exatas do que peritos individuais.
O modelo do NowPublic foi criado por três empreendedores/investidores que já operavam no mercado de tecnologia da informação e que perceberam o potencial do sistema – as informações são enviadas ao site e este também coleta conteúdo de fontes alternativas, fazendo com que o criador do conteúdo seja valorizado pelo trabalho realizado pela enxuta redação. Com isso, tem-se uma operação de baixo custo e, ao mesmo tempo, totalmente voltada à participaçõa dos usuários.
Um segundo modelo enfatiza o chamado jornalismo de nicho. O site Politico.com caracteriza-se como uma operação jornalística na web, com um complemento em versão impressa, voltada exclusivamente à cobertura de Washington, a Casa Branca, o Congresso e todas as informações paralelas que circulam no centro do poder.
O diferencial nesse caso é o estilo da cobertura, que resulta num conteúdo atraente par ao usuário. A idéia é buscar fontes alternativas de informação (não aos porta-vozes!), fazer os repórteres frequentarem locais e eventos não-políticos, dar espaço aos lobistas, entre outras formas de geração atraente.
Um terceiro modelo está voltado para uma operação sustentada por uma Fundação privada, a Sandler Foundation, de um casal norte-americano mecenas, que acredita na necessidade de uma sociedade mais justa, democrática e informada. Com isso surgiu o ProPublica.org, uma redação sem fins lucrativos, que se propõe a uma cobertura investigativa independente, focada em assuntos de “força moral”, segundo definição de seus editores.
A idéia do site foi proposta pelo ex- jornalista do The Wall Street Journal, Paul Steiger que recebu apoio para tornar o jornalismo investigativo protagonista, uma vez que o mesmo tem sido pouco considerado pela mídia tradicional. A proposta de um modelo de mecenato baseia-se na idéia de que há necessidade de construir uma marca sólida, vinculada à independência de investigação, para posteriormente bbuscar um modelo comercial par ao site.
Além desse três modelos, foram discutidos no Simpósio o conhecido The Huffington Post, o San Diego News Network, o inDenver Times, o Spot.us e o The Batavian, todos baseados em algum modelo que correlaciona UGC, participação e baixo custo operacional.
Fica a pergunta que não que calar: como estamos no Brasil? temos modelos alternativos?
(Beth Saad)

Newspapers, why are you doing this? Don't jump!
Os especialistas e editores reunidos no ISOJ foram quase unânimes em apontar os modelos de conteúdo/negócios diferenciados como a viabilização do business digital e, principalmente, como a saída para a indústria jornalística ainda atrelada ao modelo impresso. Palavras como mecenato, empreendedorismo, jornalismo de nicho, conteúdos agregadores e crowdsourcing passam a fazer parte do cotidiano do mercado do JOL.
O painel comandado pelo consultor Steve Outing, que mostrou a foto ao lado para abrir as discussões, iniciou com a seguinte afirmação: o modelo da velha mídia está ultrapassado, e os jornais podem escolher a queda livre no abismo ou partir para modelos “sucessores” e experimentar um outro patamar de negócio, conteúdo e relação com o público.
Outing listou as seguintes características do novo ambiente dos modelos “sucessores”: organizações centradas no digital; conteúdo online gratuito disponibilizado em toda e qualquer plataforma; desenvolvimento de conteúdos pagos para plataformas móvis (iPhone, Kindle, etc. ), conteúdo web premium segmentado, exclusivo e pago; departamento comercial em formato de agência de publicidade; serviços de marketing social oferecidos para a base de usuários cadastrados; parcerias de conteúdo e comerciais com outras mídias; renovação dos executivos da empresa jornalística; e busca de modelos alternativos ao RIA (Rich Internet Applications).
Considerando que as propostas apresentadas são bastante transformadoras e impactantes para uma indústria acostumada a monoplataformas e receitas publicitárias e de classificados baseadas em circulação, destacamos a fala final de Outing, que vai mais além e propõe às empresas informativas “sair prá fora da caixa“, ou seja, olhar o ambiente e seus novos players como um campo de conviência e colaboração.
Outing convida as empressa informativas a pensarem em sistemas como, o GoogleNews, o sistema de classificados proposto pela NAA (National Association of Advertisers, dos Estados Unidos), e o Kachingle, sistema agragaador de blogs:

O robô de notícias que não exige mais explicações...
Um sistema agragador de blogs - pago, que trabalha com um modelo de micropagamentos definidos conforme o valor da informação atribuído pelos usuários
Diante das sugestões de Steve Outing, as empresas informativas têm um enorme campo de novos modelamentos para seus negócios. É pegar ou largar!
(Beth Saad)
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O International Symposium on Online Journalism – ISOJ ocorreu nos dias 17 e 18 de abril, reunindo jornalistas, publishers e pesquisadores para discurtir o status da mídia digital e do jornalismo online nos Estados Unidos, Europa e América Latina. O Brasil foi representado por esta blogueira, Beth Saad, e pela Márion Strecker, Diretora de Conteúdo do UOL.
O evento, como sempre, bastante concorrido, teve como um dos temas mais polêmicos a crise que vem abalando especialmente o mercado informativo norte-americano. A grande maioria das opiniões concordou que a crise está nos modelos de negócio das empresas de mídia e não no jornalismo em si. Este, pelo contrário, está “forte, em seu melhor momento e cada vez mais criativo por conta da diversidade de ferramentas e aplicativos disponíveis para seu exercício“, segundo o consultor e professor mexicano Gabriel Sama. Na mesma linha de raciocínio, e adjetivando mais uma etapa de mudanças nos modelos de negócio, o criador e organizdor do ISOJ, Rosental Calmon Alves afirmou em seu discurso de abertura que a indústria jornalística está passando por um processo de mídiamorfose (conceito criado por Roger Fidler, autor de livro com o mesmo nome) e não por um midiacídio, tema que Rosental vem desenvolvendo desde 2005. Ele reforça a questão sugerindo que atualmente as empresas informativas estão vivenciando uma evolução em seus negócios e não uma revolução, passando por uma total desconstrução do atual sistema de mídia.
Para quem acompanha as transformações da indústria da mídia, seus negócios, estratégias e cultura, foi possível constatar nos dias do simpósio que mais uma vez surge uma encruzilhada, um momento de decisão, onde as empresas repensam a essência de seus negócios, o perfil de seus profissionais e, principalmente, o formato de seu conteúdos.
Temas como mensuração, UGC (conteúdo gerado pelo usuário), ferramentas de apoio ao conteúdo e narrativa – twitter em destaque, e avolta do backpack journalist foram intensamente discutidos.
O download dos papers e dos power points apresentados no ISOJ está disponível na página do Simpósio.
Iremos, em novos posts nesse Intermezzo fazer uma análise dos temas que mais impactaram e que têm uma maios vinculação com nosso ambiente informativo brasileiro.
Compartilho com os colegas o meu “top 5” de add-ons de Firefox. São complementos criados para o navegador que certamente podem facilitar e muito a vida de jornalistas e também pesquisadores e estudantes de jornalismo. Vamos lá:
1) Gnosis
Este é nota 10. Tenho apresentado o ClearForestGnosis nas minhas palestras sobre “Jornalismo 3.0″. Porque realmente é o tipo do aplicativo que antecipa de uma forma já concreta o poder que terá a web semântica. Ele faz uma varredura na página, identificando e inserindo automaticamente links em palavras de pessoas, cidades, empresas, organizações e não só. Útil sobretudo para APURAÇÃO de informações na web.
2) Fireshot
Aplicativo que captura telas e deixa fazer anotações. Útil para REGISTRAR (documentar) páginas web, capturá-las e inseri-las em apresentações.
3) GTD Inbox
Transforma os emails do GMAIL em tarefas. O aplicativo gera a lista de afazeres automaticamente a partir das próprias mensagens. Bom para ORGANIZAR, por exemplo, entrevistas que estejam sendo realizadas por correio eletrônico. Segue a filosofia de produtividade do “Getting Things Done” criada por David Allen.
4) delicious bookmarks
Clássico. Ótimo para ir guardando aquele monte de links de reportagens, artigos e outros materiais interessantes que ajudam o nosso trabalho cotidiano. O aplicativo integra os bookmarks e as tags do delicious com o Firefox e os mantém facilmente acessíveis.
5) Interclue
Quer saber o que há por trás dos links? O Interclue mostra o caminho sem que você precise clicar no link. Fantásico para inibir o “efeito de pandora” dos cliques. Economiza o nosso tempo.
Outras dicas valiosas que chegaram via Twitter:
Dica do Dauro:
dauroveras @danibertocchi boa ideia! duas sugestões pra sua lista: delicious bookmarks e hyperwords.
Dica do Murilo:
murilopinto @danibertocchi http://tr.im/ekiw Apesar que discordo de algumas.
Dica da Renata:
sp00 @danibertocchi Piclens:é um visualizador de imagens, funciona em sites como google images e flickr,bom p/ quem pesquisa imagens.
Já passamos da primeira década de internet disseminada e ainda ouço de alunos e colegas a máxima: “Na internet, o texto tem que ser curto, não é?”. Não, não é.
Definindo
Desde os primórdios, o hiperlink permite, entre outras coisas, a fragmentação de qualquer conteúdo em pedaços, ou chunks, em inglês. Com isso, deixamos a cargo do usuário decidir o quanto ele irá se aprofundar em determinado assunto.
Essa é uma das principais vantagens do texto digital em relação ao analógico. No segundo, como há limitações de tempo e espaço, o jornalista diariamente imagina quem é o seu leitor e faz uma auto-seleção de quais termos merecem um desenvolvimento ou não. Por exemplo, um jornalista do Mais! – caderno do jornal Folha de S.Paulo sobre cultura – certamente se sente à vontade ao discorrer sobre Schopenhauer, pois imagina que a média dos seus leitores conhecerá o filósofo. Por outro lado, o repórter do jornal Extra, periódico popular do Rio de Janeiro, seria obrigado a fazer uso de um longo aposto para contextualizar o seu público-alvo sobre quem é o autor e o que ele fez de importante.
Pequenos preconceitos e grandes limitações
O jornalismo tradicional é formado por esses pequenos e praticamente inconscientes preconceitos. Na prática, nem todos os leitores do caderno Mais! são eruditos e nada garante que os do Extra não o são. Entretanto, pelas limitações do suporte, o jornalista é obrigado a desenhar em sua imaginação o público-alvo e moldar seu texto a ele.
Além disso, os suportes tradicionais são limitados por suas características. Eles não atendem plenamente nem o especialista e nem aquele que desconhece o assunto. Continuando com o exemplo do Schopenhauer, o jornalista pode fazer uso de recursos como o aposto ou o box para tornar o texto mais acessível. Correto? Errado. Na verdade, essas saídas soarão enfadonhas para o especialista e ineficaz para o leigo, já que elas não oferecem grandes aprofundamentos.
O hiperlink – assim como o hipertexto e a hipermídia – chega para dar um salto qualitativo em termos de redação. Pela primeira vez, podemos fazer um texto curto do qual se ramificam conexões que levarão a um aprofundamento. Dessa forma, um especialista pode se contentar com um nível mais superficial da informação enquanto o leigo, de acordo com o interesse, tem à disposição diversas conexões que o levam a conteúdos realmente detalhados.
Já pensou o que seria da internet como fonte de pesquisa se todos levassem a sério o mito do texto curto? Mudar a maneira como se aprendeu a escrever é difícil. Como começar a escrever de forma não-linear e em camadas depois de toda uma vida alfabetizado na linearidade. Tanto não é fácil que praticamente nenhum veículo faz uso do hipertexto de forma avançada. A maioria ainda escreve para a web como se escrevesse para um jornal e produz conteúdo em vídeo como se estivesse produzindo para a televisão. Em seus livros, MURRAY e SALAVERRÍA já debateram intensamente o fenômeno da subutilização dos recursos do meio digital. Por esse motivo, o texto não precisa ser, necessariamente, curto. O ideal é darmos condições aos usuários, por meio dos hiperlinks, para decidirem o quão curta ou extensa será a leitura de acordo com os interesses e repertórios de cada um.
Mas, afinal, de onde surgiu esse mito?
“A culpa é do Nielsen”
Em 1997, o especialista em usabilidade Jakob Nielsen (foto) publicou o artigo “How Users Read on the Web“. Nesse estudo, ele demonstra o quanto o texto curto, com destaques visuais e à base de marcadores tornam a leitura na internet mais eficaz.
Ele está certo. Um texto nesse formato tem mais chances de ser lido do que parágrafos e mais parágrafos dissertativos. Entretanto, não podemos nos esquecer de três pontos antes de repercutir o texto de Nilsen:
- A análise feita por ele mediu aspectos fisiológicos do comportamento. Do ponto de vista do conforto, um texto de acordo com as características propostas realmente funciona melhor. Entretanto, o fator interesse não foi levado em conta. É esse fator que faz os leitores do Observatório da Imprensa escreverem para o site reclamando que alguns artigos ficaram curtos demais.
- A pesquisa foi feita em universo bastante restrito e Nielsen deixa isso bem claro. Quem lê os prefácios dos livros dele percebe a preocupação em deixar claro que estamos falando de recomendações que devem ser analisadas e adaptadas dentro de um contexto particular, e não dogmas universais.
- Há 12 anos, predominavam os monitores CRT que, notavelmente, tornavam a leitura diante da tela bem mais cansativa em relação aos atuais de LCD.
Entretanto, a leitura superficial desse artigo foi parar nos livros, que foi parar nas mãos dos professores que, até hoje, cuidam da perpetuação do mito do texto curto entre os jovens jornalistas. Aqueles mesmos que, após quatro anos, estarão nas redações digitais, se tornarão editores e passarão essa máxima equivocada adiante fomentando um ciclo que atrasa, e bastante, o desenvolvimento de uma narrativa jornalística que usufrua plenamente os recursos do ambiente digital.
(Andre de Abreu)

Acompanhando o excelente blog 233Grados, do colega espanhol Mário Tascón, tenho sempre a impressão de que é difícil e indigesta a aceitação e convivência com as irreversíveis mudanças no processo jornalístico e nos profissionais da área diante do acelerado mundo digital. Mesmo com a evidência dos fatos ainda vemos resistentes entrincheirados, insistindo em encontrar na voz de autoridades da área justificativas para suas posições.
Nessa linha é muito interessante o post do 233Grados que monitora a troca de idéias entre dois jornalistas do El Pais sobre o tema. De um lado, estão ali apresentadas entrevistas realizadas pelo jornalista Juan Cruz – um resistente assumido – com diversos nomes de peso no mundo jornalístico da Europa e dos Estados Unidos. Incrível, pois, o feitiço virou contra o feiticeiro, já que a grande maioria dos entrevistados, em oposição às colocações de Cruz assume o mundo digital como irreversível e já concretizado, sem que isso comprometa um jornalismo de qualidade.
Para acirrar o embate, na outra ponta está o jornalista Enric González – um digitalizado – que assina matéria no mesmo jornal entitulada Funerales onde defende a qualidade de conteúdo como base fundadora para o sucesso de qualquer operação informativa, em qualquer plataforma.
Reproduzo a seguir o trecho mais interessante (em Espanhol):
La industria periodística, que numerosos expertos dan por desahuciada y que, por la costumbre, solemos confundir con el oficio, es un asunto de propietarios, capataces y empleados. Si la despojamos del velo de romanticismo, queda eso: una jerarquía vertical, unos intereses comerciales y políticos, unos empleados que sirven a cambio de un sueldo.
La parte industrial, la que dicen que agoniza, no es especialmente bonita de ver. Toda la gracia está en el oficio, en las personas que lo practican y en el público al que sirven. Quizá desaparezcan las mesas, la cafetería, las complicidades oficinescas, la seguridad de una nómina, la enfermedad retribuida, el relativo cobijo de una cabecera; es de suponer que, en contrapartida, el periodista quedará liberado de los compromisos de sus amos. Se atisba una época en la que el periodista será él mismo, expuesto a la intemperie, a solas con sus propios compromisos y sus propios errores.
São ilustrações que reforçam o temos insistido nesse Intermezzo: discutir informação em ambientes digitais requer mudança cultural da empresa, seus publishers e colaboradores; novas habilidades profissionais; reforma urgenta nas estruturas de ensino,treinamento e desenvolvimento de pessoas, y otras cositas más….
(Beth Saad)
Comecei a compilar dados sobre os principais eventos de comunicação agendados para 2009. São congressos, encontros, seminários e cursos relacionados ao mundo da comunicação, tecnologia, internet e jornalismo. Consegui muitas dicas interessantes acompanhando o amigo português Paulo Nuno Vicente no Twitter. Outras sugestões de eventos no Brasil e exterior são muito bem-vindas! Podem deixar na área de comentários ou enviar por email: daniela@bertocchi.info
P.S. A foto acima está no meu Flickr: foi capturada em 2004, no Congresso de Jornalismo Digital em Santiago de Compostela, Espanha.
(Daniela Bertocchi)

Imagem de Satélite - National Mall, Washington na hora da posse de Obama
A cobertura integrada CNN/Facebook do evento Obama Inauguration colocou em pauta o exercício do compartilhamento em tempo real mais puro – sem fronteiras; múltiplos fusos horários, etnias e culturas; e muita diversidade de opiniões, de pessoas próximas e de estranhos – tudo disponível na mesma interface, acompanhando o streamming audiovisual que bateu recordes de audiência.
Penso que para quem não é aficcionado, compreender a função de uma rede social, inserir-se na sua dinâmica e tornar-se um participante ativo é algo que necessita de motivação, concretitude e maleabilidade, mesmo em tempos de uma internet bastante presente no dia-a-dia coletivo (a internet imanente). Os mais de 13 milhões de stremmings da CNN/Facebook podem representar o elemento concreto, ou o efeito-demonstração para que cada vez mais o mundo das redes sociais também seja tão imanente quanto à própria rede.
Existem aqui alguns aspectos que valem a pena comentar: a questão tecnológica como desencadeadora de fatos sociais e de aglutinação informativa, deixando para trás o aspecto do determinismo; o contexto sócio-antropológico das redes sociais na web; e os aspectos de modelo de negócios e concentração de tráfego que viabilizaram a parceria.
Nesse post vou me concentrar mais na questão social sustentada pela tecnologia sem, entretanto, desconsiderar os demais pontos que serão mais bem abordados em novos posts desse Intermezzo.
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Será que valeu a pena assistir à posse pelo CNN/Facebook? Teria sido melhor acompanhar de casa, no sofá, pela Globo, com a tradução simultânea? Ou pela própria CNN no cabo, ou ainda, desconectar-se de vez? Como optei pela rede social, digo que valeu, e justifico isso diante do diferencial oferecido pelas ferramentas da rede social - as conversações.
Ao final da cerimonia, o colega professor espanhol José Luis Orihuela manifestou-se para a nossa comunidade: “Muy buena experiencia seguir el evento con la comunidad de amigos en Facebook“. Essa boa experiência pode ser social e tecnicamente avaliada como uma revalorização da relação informação/comunicação diante da complexidade do mundo contemporâneo (uma leitura de nossa sociedade por Derrik de Kerckhove). O autor, citado por Vítor Oliveira Jorge, da Universidade do Porto, diz: “Hoje, só podemos pensar se conseguirmos sair dos estereótipos e dos arquétipos da nossa cultura tradicional. Ora, esse foi sempre o desafio da antropologia. É por isso que os seus conhecimentos e a sua experiência são fulcrais ao entendimento da contemporaneidade”.
Tal revalorização pode ser observada ao vivo por quem participou da transmissão CNN/Facebook. Nessa linha, dentre as manifestações de minha comunidade no Facebook, destaco as dos colegas Daniela Bertocchi (a Dani) criadora e autora desse Intermezzo, Francisco Madureira (o Madu), jornalista responsável pelo UOL Tecnologia e meu orientando na ECA-USP e Nuno Vargas jornalista e webdesigner de Portugal: todas reforçam o aspecto das conversações.
Diz a Dani: “Estive com a minha comunidade, na mesma interface online, acompanhando o mesmo evento ao mesmo tempo, tecendo comentários juntos, criando um discurso paralelo à cobertura tradicional da TV. E note-se que há uma diferença entre os botões “Everyone watching” e o “Friends”. Coisas distintas. Não é uma mesma coisa que colocar um chat entre os usuários. E tem o Twitter…enfim, fez história!!!“.
O Nuno destaca a multiplicidade de ferramentas aplicadas num evento diferenciado na rede: “Obviamente, a novidade aqui não foi o chat. O que diferenciou, penso eu, foi ter um live streamming + social network como o Facebook incorporado no streamming pannel + um evento quase inigualável decorrendo + a possibilidade de inserir twitters próprios. Várias plataformas e vários espectros entre o público e o mais privado ou “friendly”. Mushing, crossing and producing content!”
Por outro lado, não podemos nos esquecer da colocação do Madu: será que isso não é bem parecido com que o Terra, por exemplo, já fazia há pelo menos três anos disponibilizando chats junto com suas coberturas ao vivo? Ou seja, será que estamos falando de inovação?

É preciso ter cuidado ao discutir inovação no mundo digital, onde o ciclo de vida tecnológico é extremamente curto, levando os mais desavisados a pequenas confusões semânticas (já que inovação não é a mesma coisa que novidade, por exemplo) ou a escolhas conceituais inadequadas à complexidade contemporânea. Apesar das TIC’s serem unamimemente consideradas como uma inovação tecnológica em constante mutação, estas quando aplicadas a sistemas e redes coletivos, como é o caso das redes sociais, entram num contexto mais recente que levam em conta as inovações no âmbito das ciências sociais. E aqui, a perspectiva economica dos Schumpeteriamos perde a sustentação.
Se considerarmos a agenda da inovação tecnológica social, o evento Obama no Facebook empreendeu o “pulo do gato” à perfeição, a inovação ocorreu pela tecnologia sustentando as relações mais do que pela tecnologia possibilitando um streamming de qualidade A ou B, por exemplo. O pesquisador Thales de Andrade tem excelente texto sobre o tema, e diz: “A proposta dos cientistas sociais interessados em compreender os rumos da inovação na sociedade contemporânea significa uma mudança de enfoque analítico, voltado agora para os elementos intangíveis e cambiantes da prática tecnológica e social, em que as relações são mais fundamentais do que as coisas, em que os processos superam os resultados em termos de intelegibilidade das práticas sociais“.
Enfim, o compartilhamento experienciado pelo ambiente CNN + Facebook — e note-se que a cobertura da posse do Obama nesta terça, 20, gerou 136 milhões de pagesviews e 21,3 milhões de streams de vídeo, com pico, durante o discurso do presidente, de 1,3 milhão de vídeos simultâneos — constituiu-se num “case” exemplar integrador de plataformas, de inovação social e um marco para a web 2.0 como canal de conversação e comunicação coletiva. Valeu!
(Beth Saad)

Mais:
Facebook/CNN Partnership Posts Phenomenal Results
Facebook and CNN: The Power of the Social Web Revealed – ReadWriteWeb
Online Video of Inauguration Sets Records
Can CNN, the Go-to Site, Get You to Stay?
Pelos canais globais de notícias, “mar de caras felizes” é retrato de cerimônia
Você já se fez essa pergunta? Os blogs teriam chegado a um patamar de qualidade de conteúdo maior do que o da grande imprensa? Seria a mudança geracional dos leitores? A tal web 2.0?
Talvez. Mas um dos possíveis motivos para a queda de leitura da grande imprensa online atende pelo sigla SEO. Não se preocupe, não irei discorrer sobre monetização e sim como os sites noticiosos da grande imprensa não se adaptaram a mudança de comportamento que todos já estão carecas de saber: as pessoas não acessam mais; elas buscam.
Os trabalhos de BATTELLE, TAPSCOTT, MEYER, e SANT’ANNA falam amplamente das características do leitor digital. Contudo, basta conversar com qualquer editor de redação on-line para ele atestar o fato de que a maior parte do tráfego do site advém do Google. Esse fenômeno é observável em qualquer local público de acesso à internet. As pessoas trocaram os favoritos e a digitação manual pelo conforto e a praticidade de uma busca eficiente.
Diante essa realidade, pergunto: ao realizar suas buscas, quantas vezes um site de jornal ou revista de grande circulação apareceu na primeira página de resultados? Faça o teste. Você verá que raramente eles aparecem. As primeiras páginas do Google são praticamente domínio de blogs e de wikis. Mérito deles? Em alguns casos sim, mas mérito maior das plataformas de conteúdo:
- A maioria das empresas renega plataformas livres de publicação de conteúdo, pois temem a falta de suporte. O resultado é a aquisição de CMSs fechados ou o desenvolvimento de soluções in house que, sem as devidas personalizações, não são semanticamente corretas. Por outro lado, praticamente todos os blogs são construídos em cima das plataformas WordPress e Blogger. Ao contrário dos pacotes fechados, os desenvolvedores e as centenas de voluntários em torno desses dois projetos trabalham versão a versão para deixá-los cada vez mais corretos e adequados ao W3C e aos principais padrões web.
- As URIs das notícias dos sites da grande imprensa geralmente são compostas de códigos gerados aleatoriamente pelos CMSs ao invés de trazerem o conteúdo da manchete. Estruturas de endereços não amigáveis fazem com que as páginas percam relevância para o Google.
- Alguns dos sites de jornais e revista que testei desconhecem o que é SiteMap e Robots.txt. A ausência desses dois mecanismos também faz qualquer página perder muitos pontos nos resultados orgânicos dos mecanismos de busca.
A junção da tecnologia dos blogs, a ausência de tecnologia dos sites da grande imprensa e o novo comportamento dos leitores acaba retroalimentando o sistema. O novo usuário busca o conteúdo que aparece na primeira página dos sites de busca – independentemente de grandes critérios qualitativos ou de reputação, basta que o conteúdo responda a pergunta da busca e a minha experiência como professor universitário, infelizmente, comprova isso -, com plataformas mais otimizadas, blogs e páginas wiki sempre aparecem nas primeiras páginas e, logo, são mais clicadas e referenciadas. Desta forma, o algoritmo do Google entende que esse tipo de conteúdo é mais relevante do que os conteúdos dos sites de imprensa. Com a repetição desse ciclo, os sites jornalísticos – a despeito da crise do setor – são, cada vez mais, relegados às últimas páginas dos resultados de busca.
Por isso, além do investimento em conteúdo de qualidade, relevante e exclusivo, é preciso também melhorar as plataformas de conteúdo e não ter medo do que é gratuito. Um bom ponto de partida para iniciar essa mudança é a leitura do Google’s Search Engine Optimization Starter Guide (PDF).
(Andre de Abreu)




